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Os episódios que antecederam e explicam o processo de conversão do músico em mito de toda uma época.

Certa vez Charles Peirce, mestre da semiótica, declarou que “a formação do mito está mais ligada ao seu processo de mitificação que a seus feitos em si”. Tempos depois descobriram que ele se referia a sua governanta, Norma, que na ocasião teria se confundido e feito um bolo com cal hidratada ao invés do fermento (do latim fermentus).

Mas esse primeiro parágrafo em nada se relaciona à figura de Douglas Fernando Monteiro, Dodô, paulistano,vocalista e espírito libertador do grupo Pixote. Esbelto e serelepe, o cantor e compositor que saiu das filas do McDonald’s, onde trabalhava como caixa, direto para as fileiras da fama com sucessos que traduzem os anseios do cidadão sulamericano, como Uma Simples Carta e Brilho no Seu Olhar.

emociona-se

emociona-se

Entender o Grupo Pixote no contexto nacional significa voltar para o ano de 1993, em que brasileiros mais pessimistas já sofriam, por antecedência, a perda do maior herói nacional, Ayrton Senna da Silva, que aconteceria no ano seguinte. Era um cenário de incertezas econômicos, em que o Plano Real ainda era um rascunho do Gmail do então economista Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Imaginaram o cenário? Agora imaginem uma van cinza-Ubatuba, toda esburacada, fumaceando bastante no escapamento, deve ser carburador. Do veículo, saem cinco garotos que, com algumas composições, foram galgando novos espaços até ganhar um concurso de talentos. Nascia aí uma nova vibe nacional, tendo seu Cavern Club em bares da Zona Sul de São Paulo, explodia o Pixote.

Se o Pixote rendeu novo brilho à música brasileira, o que não ocorria desde a Bossa Nova e a Capoeira, o maior culpado disso foi Dodô. O vocalista de cabelo espetado, impôs os sucessos da banda e, de quebra, ainda se juntou aos verbetes de nomes como Santos Dumont Airport na história brasileira, ao ser também um inventor: criou o boné-viseira.

Nem mesmo toda água do mar
Vai ser bastante pra apagar
Este vulcão que está em ti
Provoca erupção em mim

Grave, o timbre de Dodô já foi comparado a Johnny Cash e a Ademir Sabiá, bicheiro muito conhecido no bairro Belém, em São Paulo. Sua presença marcante contagiou célebres personagens da produção acadêmica brasileira, como o aclamado filósofo Benjamin Quintaion e Maria da Graça Meneghel, conhecida na plataforma Lattes como Xuxa. Essa que é uma figura muito presente em sua vida e, em qualquer foto dela na internet, experimente usar a ferramenta zoom out que, provavelmente, será possível ver nosso Dodô ao seu lado.

Mas qual o motivo de o nome de Dodô estar assim tão em alta? Artista oriundo de uma época que não deixou muitos herdeiros, a não ser o grunge e a xilocaína; cantor de um estilo em baixa nas paradas de sucesso dominadas por Lucas Lucco; o que explica essa apoteose em torno de seu nome?

Estudiosos no momento tentam repensar o fenômeno Dodô e entender o que teria motivado a coqueluche. A hipótese dele ter sido fotografado pelo mesmo rapaz lá que fez a foto do Che Guevara foi descartada. As conclusões iniciais (ainda está no primeiro semestre da bolsa de iniciação científica) dão conta que tem a ver com o aumento das pessoas com barba, do advento do Twitter e da ocupação de Williamsburg por cafés e picos Wi-Fi.

Homem do povo: nessa foto Dodô chocou o mundo ao fazer parar o Papamóvel para que pudesse abraçar esse menino

Homem do povo: nessa foto Dodô chocou o mundo ao fazer parar o Papamóvel para que pudesse abraçar esse menino

Enfim, enquanto não vem o primeiro relatório sobre o tema, vamos curtir essa música marcante, que fala muito sobre o conceito de O Bom Selvagem de Rousseau – e que de quebra ainda tem uma interpretação teatral magnífica de Dodô com uma gostosona no início.

 

 

 

 

 

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