Para entender o momento histórico desse raro registro sobre a posse da Câmara de Pirajuhy, é importante observar o que acontecia no estado de São Paulo nesse período.
É fundamental entender que havia terminado, há pouco, a Revolução Constitucionalista de 1932, conflito armado que, se por um lado os paulistas perderam no campo de batalha (inclusive com mortes e desaparecimentos de conterrâneos pirajuienses), por outro, houve vitória política, dos ideais de liberdade e democracia.
Foi nesse contexto que aconteceu a eleição do dia 15 de março de 1936, que marcava a formação da Câmara de Pirajuhy e rendera um dia inteiro de grandes solenidades, num domingo, dia 15 de Agosto.

O PRP e a Câmara de Pirajuhy
Quem saiu politicamente fortalecido da disputa armada foi o Partido Republicano Paulista (PRP), formado por profissionais liberais (engenheiros, advogados, médicos) e por grandes agricultores, partidários da imigração europeia para o trabalho na lavoura.
Em Pirajuí (que na época era Pirajuhy ainda), tinha como grande nome articulador o de João B. de Castro Prado.
Nas eleições de 1936, sua movimentação fora responsável pelo sucesso do PRP nas urnas locais: como prefeito, estava o médico e fazendeiro, Dr. Jorge Meirelles da Rocha (sim, o homem que dá nome ao Centro de Saúde). À época, sua família era proprietária da grande propriedade rural que hoje abriga o Bairro Santa Guilhermina. Aqui, como sempre, faço um adendo biográfico pessoal: nas terras dos Meirelles, meus avós maternos nasceram e se conheceram, ou seja, faz parte das raízes de minha história.
Quando eleito prefeito, Dr. Meirelles agradeceu o apoio dos conterrâneos, pela confiança depositada e as amizades trilhadas nos 16 anos vivendo no nosso município (não se esqueçam que a própria Pirajuhy, à época, ainda era uma jovem menina).
Como vereador e ocupando o cargo de presidente da Câmara, estava um jovem, porém respeitado médico maranhense: Dr. Pedro da Rocha Braga. Assim como Meirelles, também estava em alta no PRP, após inclusive terem se alistado no Regimento “9 de Julho”. Rocha Braga lutara como Capitão-Chefe do Corpo de Saúde do 4º B.C.
Aliás, a biografia do Dr. Pedro é impressionante – e foi explorada de forma muito competente pelo saudoso Professor e Diretor Miguel Mourão. Em breve vou publicar esse material por aqui.

Dia agitado teve churrasco e banquete
Foi uma sexta-feira de muita chuva na cidade de Pirajuhy, como narra reportagem do Correio Paulistano (aliás, aqui faço duas observações: 1. o jornal pertencia ao PRP; 2. essa notícia raríssima nos foi enviada pelo memorialista da cidade de Óleo, SP, Yuri Cardoso Rossi).
O primeiro prédio da Estação Ferroviária de Pirajuí (que seria chamado de “prédio velho”) , era localizado nas proximidades da Rua Barão do Rio Branco, mais ou menos entre a Rodoviária e o prédio que hoje abriga a Barão Materiais de Construção (anteriormente, foi a fábrica de artigos esportivos da Penalty).
Foi lá, entre uma pancada de chuva e outra que, às 9h, chegou o trem com uma comitiva de políticos do PRP da capital, com nomes como o presidente César Lacerda e o padre Luiz de Abreu, que fora um nome relevante da Revolução de 32, entre tantos outros que ocupavam os vagões.
Figura de respeito em Pirajuí, no PRP e com forte atuação na Revolução de 1932, quem recebeu a comitiva foi o Coronel Adhemar Manso Monteiro da Costa Reis.
Vieram exclusivamente para comemorar a instauração da Câmara de Pirajuhy e logo foram para um churrasco, no que o jornal chama de “região mais alta da cidade”. Imagino que possa ter acontecido na propriedade do Dr. Meirelles.
Uma multidão de populares acompanhava os visitantes ilustres, mas daí São Pedro foi impiedoso. A chuva ficou ainda mais pesada, fazendo com que o povão se dispersasse.
Às 14h em ponto, começava a solenidade, que teve falas interessantes dos empossados.
As falas de Meirelles e Rocha Braga
Uma cidade nova, em uma região considerada próspera, que reunia pessoas de vários cantos do Brasil (e até de fora do país).
Rocha Braga, por exemplo, veio do Maranhão. Adhemar Manso e o Meirelles, eram de Minas Gerais. Mas mesmo assim, naquele momento, buscavam exaltar tanto o estado paulista quanto a cidade que ali se formava e fortalecia.
Rocha Braga disse: “Não farei do cargo um lugar de facção, mas, ao invés, me esforçarei para ser uma força moderadora no decorrer dos debates que aqui surgirem”.
Já o Dr. Jorge Meirelles, diante dos presentes, discursou: “Sejamos todos irmanados num só sentimento de paz para o progresso de nossa terra”.
A “dobradinha” deu bastante certo. Pouco tempo depois, em julho de 1938, Rocha Braga seria nomeado Prefeito de Pirajuhy. Cargo que ocuparia até 1941 e que seria responsável por uma verdadeira revolução nas estruturas urbanas e sociais de nossa cidade.
O banquete
Naquela mesma noite, um jantar de gala, com casais vestindo seus melhores trajes, encerrou o dia político de celebração à Câmara de Pirajuhy. O evento ocorreu no extinto e elegante Theatro São Pedro, que décadas depois seria o Esporte Clube Operário (ECO) e que, então, seria demolido para a construção de comércios na Rua Rodrigues Alves – hoje fica a bela loja 2 do saudoso Caê.
No centro do evento, uma homenagem a João B. de Castro Prado. A fotografia da grande mesa, com figuras da sociedade e representantes de toda região (Bauru, Guarantã, Balbinos, Novo Destino, que posteriormente seria anexado a Uru, Estiva Grande, Corredeira).
Como este é um site de memórias, vou listar aqui os nomes dos convidados presentes à mesa do banquete, nesse jantar de gala em celebração à Câmara de Pirajuhy.
Pirajuhy
Dr. João Meirelles Netto, Dr. João Carvalho Aguiar, Dr. Alves Moraes, Salvador Comodo, Ernesto Pinho Aranha, Alberto Lusvarghi, João Rosato, Vicente de Sousa Prado, Sebastião Camargo, José Lopes Rodrigues, José Gamba, Ignacio Bastos, Enéas Mendonça, Luiz Rapine, João Bonadio, Gastão B. Rodrigues, Sylvio Savi, Virgilio Ermel, Pedro Rachid, Nahssem & Murad, Luiz Benedicto, Antonio Pissolante, Assado Bechara, Antonio P. de Luiggi, Celestino Gonçalves, Ragi Jubran, A. Gomes da Silva, João Augusto Lopes, Rachid Cury, Miguel Egea, Victor A. Abreu, Valentin Grava, Nacin Paulo, Reynaldo Frias, Oreste Savi, Odilon Tavares Paes, José Coltri & Filho, Henrique Milanezzi, Dr. Carlos Rogner, Milton Tavares Paes, Marcellino Chaves, Annibal Rizzo, Sebastião de Oliveira Franco, José Pavan, Sebastião A. de Sousa, Antonio Ciotto, Dr. Luiz V. Figueira de Mello, Durval Lauro Sampaio Lara, Dr. Noé Alberto Pacheco, Camillo Savi, Joaquim Ramos de Oliveira, Mario Pompeo, Americo Augusto Pereira.
Claudine W.A. Pereira (Deiê)
02/07/2021 — 22:28
Que maravilha de História, que será um Marco para toda Pirajuí, muito bem declarada esta passagem que muitos não conheciam, inclusive eu.
Parabéns…
Claudine W.A. Pereira (Deiê)
Sergio Benedito Bonadio
03/07/2021 — 12:01
João Bonadio, que consta na relação de participantes do banquete é meu tio! Parabéns pela publicação.
Paulo cunha
03/07/2021 — 22:29
A História de Pirajuhy é sempre bem vinda, é inacreditável que exista alguem que o faça e divulguem. Continuebens.
funcionário Marcelo
06/07/2021 — 18:42
se fazemos algo do tipo, é 99% por CULPA TUA Sr. Piatã! obrigado pela leitura. É sempre uma HONRA!
funcionário Marcelo
06/07/2021 — 18:42
QUE MARAVILHA!
Ele era o dono do Theatro, correto?
Obrigado pela leitura
funcionário Marcelo
06/07/2021 — 18:43
Obrigado, caríssimo!!
messias josé rodrigues
08/07/2021 — 14:24
Bons tempos aqueles. Papai trabalhou na fazenda do Rocha Braga, na região de Pongai. A fazenda chamava-se Carmem Sílvia, em homenagem a uma filha do Dr.Pedro da Rocha Braga. Isso nos idos anos de 1951. Dr. Jorge Meirelles da Rocha, não cobrava consulta das pessoas pobres. Eu mesmo por muitas vezes fui ao seu consultório e a consulta era gratuíta. Obrigado caro amigo Dr. Jorge Meirelles da Rocha. Que Deus os tenha.