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Confesso que conhecia sim, a atração de humor dominical da emissora de TV Que Mais Cresce No Brasil, mas não sabia da existência do quadro – até porque eu nunca tinha assistido. Geralmente no domingo à noite eu estou lá em baixo, nos estábulos, trocando a ferradura dos cavalos.

Foi meu amigo-irmão-compadre São Braga quem me abriu os olhos para a atração. Estava em sua casa ajudando nos pormenores da festa de 1º aninho de sua filha (e minha amada afilhada) Aninha Beatriz quando ele me disse: “rapaz, é bom você dar uma olhada nesse quadro Zap Zap do Encreca”. Naquele momento, dei de ombros, pois eu estava preocupado em encher uma bexiga para a festa. Depois repensei, pois apesar do Sã ter um ou outro gosto mais duvidoso – como a canonização excessiva de Jean Claude Van Damme e a idolatria ao novelista Aguinaldo Silva –, nós viemos exatamente da mesma formação cultural e, portanto, poderia ser uma dica válida.

Há mais de um ano no ar, o Encrenca estreou para suprir uma lacuna deixada pelo Pânico na TV na emissora, que foi quem primeiro deu espaço a Emilio Zurita e sua turma, oriundos da Jovem Pan. O jovem programa também teve origem no rádio – é uma versão televisiva do Quem Não Faz Toma, da 89FM.

Com o formato semelhante, ao vivo, com plateia e os integrantes perambulando de um lado para o outro, ele tem quadros fixos, que misturam pegadinhas e reportagens.

Mas, na minha opinião, nenhum deles tem o brilho da atração tema deste artigo: o Zap Zap.

Galera do Encrenca: dá 89FM para a RedeTV (foto: Divulgação)

Galera do Encrenca: dá 89FM para a RedeTV (foto: Divulgação)

 

A ideia é a mais simples possível. Durante a semana, uma equipe do programa faz uma CURADORIA dos melhores vídeos compartilhados via aplicativo WhatsApp, seja alguns famosos que estão rodando por aí, seja os endereçados para o próprio telefone do programa, que fica no ar o tempo todo – na edição deste domingo (30), até o vice-presidente da RedeTV, Marcelo de Carvalho, enviou uma sugestão de vídeo, ao melhor estilo “o que engorda o gado é o olho do dono”.

A geração que acompanhou o advento do WhatsApp utiliza, na verdade, a evolução de uma série de tecnologias que, desde o início dos anos 2000, estão se desenvolvendo aos poucos. Há os recursos excelentes, como a rapidez na comunicação, a mensagem instantânea de texto, áudio, o compartilhamento de vídeo, fotos, o conceito de rede social e grupos.

Sendo assim, houve também espaço propício para criação das consequências ruins desse tipo de facilidade tecnológica: a foto vazada, a mensagem de madrugada “na errada”, o maníaco por acidentes de carros, o maníaco por correntes religiosas, a disseminação de mentiras, OS GRUPOS DE WHATSAPP DE FAMÍLIA QUE TOCAM DIOTURNAMENTE.

E com WhatsApp na mão, você se transforma em refém desses grupos. Se você pede para sair, é o antisocial, a ovelha negra, esse daí se acha, come mortadela e arrota caviar, está enfiado em dívidas. Se você simplesmente não lê as mensagens, é o alienado, nunca vi um cara assim tão desligado, perde churrascos, chega fantasiado na festa sem saber que cancelaram as fantasias momentos antes, é bipolar, etc.

E como o grupo é de família, o legal é que sempre há aquela pessoa mais compreensiva. Um conhecido meu estava numa farra danada, na Praia Grande, mesa cheia de uísque, energético, cigarrão de maconha na boca, fazendo uma selfie no estilo “acaba não mundão” para enviar aos trutas que tinha desistido da viagem. Sem querer, encaminhou a foto para o grupo de WhatsApp da família. Nisso, enquanto a casa dele caía entre ofensas e xingos, a tia desavisada do Paraná, que acabou de comprar smartphone apenas comentou: “Eita vocês aí só que festam hein! Beijos. Saudades”.

Essas situações privadas (que você acompanhava, inclusive, da privada) passaram a ser públicas a partir do início da noite do domingo, no quadro Zap Zap. Uma adolescente desavisada é arremessada para o alto pelo tio que não sabia brincar de gangorra; em seguida um jovem habilidoso na bike atravessa 100 metros empinando, mas tromba com outro ciclista que vinha na contramão. Os tombos são muito melhores que as imaculadas Video-Cassetadas do Faustão, que em sua maioria são gravadas ainda no VHS, com aquelas datas aparecendo no canto da tela. O WhatsApp democratizou a difusão de conteúdos, pode até ser que alguns sejam gringos, mas a maioria é daqui mesmo, um vídeo que pode ter sido gravado com sua sobrinha ou no seu bairro. Pierre Lévy uma hora dessas deve estar jogando bocha – ele é tão bom na cibercultura quanto na bocha – e, certamente, está muito orgulhoso com esse momento de êxtase na comunicação.

O teórico francês Pierre Lévy ao prever a Cibertcultura jamais imaginou que sua tia do Paraná teria acesso a ela (foto: Wikimedia)

O teórico francês Pierre Lévy ao prever a Cibertcultura jamais imaginou que sua tia do Paraná teria acesso a ela (foto: Wikimedia)

Claro que, nem tudo haveria de ser festa. Ao reproduzir o conteúdo que emana dos celulares brasileiros, o Zap Zap corre o risco de compartilhar também essa AGENDA política (no caso, anti-Dilma e anti gestão do PT em São Paulo). Então são comuns memes sobre a presidente e vídeos contra a ação da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) da capital. À mesma maneira dos grupos de WhatsApp de família, mensagens engraçadinhas de bebês dando bronca nas mamães são rapidamente sucedidas por graves acidentes de trânsito, vídeos de assaltos e brigas de adolescentes em pátios escolares.

O Zap Zap é um dos quadros de entretenimento mais interessantes da televisão brasileira nos dias de hoje. Ele reproduz o tipo de coisa que consumimos diariamente em nossos smartphones. Ele assume sim, talvez até involuntariamente, o papel de fazer um retrato da sociedade brasileira atual. Mas muito cuidado, pois o resultado dessa fotografia pode te assustar um pouco.

 

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