Equivocou-se David Foster Wallace ou Por Que Amo Cruzeiros – Versão Completa

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Parte I

 
0041cho que nem tinha tomado café quando peguei a estrada em direção a Santos, sei que bem perto das 9h da matina eu já tinha deixado o centro da cidade (velha, histórica, linda e puro cavalete de reformas) para me aproximar daquela ponta da praia onde fica o porto. Aliás se há uma coisa que, visualmente, não me animam são os portos – e digo isso desde o primeiro GTA, quando tinha que pegar os carrinhos na rua e levar até o porto para fazer os esquemas errados. Porto para mim lembra aqueles conteineres, todos numerados e empilhados, com sabe Deus o que lá dentro, mas certamente algo que está deixando alguém bem rico.

Logo pela manhã daquela quinta-feira eu já estava na terra de Neymar, Robinho, Chorão e Vavá do Karametade (e seu gêmeo) para embarcar em um cruzeiro de 5 noites a bordo do navio MV Zenith.

Com a barriga roncando, havia saído de São Paulo e já estava em um lugar próximo aos navios cargueiros, um tanto quanto preocupado sobre a existência de um lugar e em que condições deixaria meu possante enquanto estivesse sobre a água. Não deixa de exalar certa ironia essa história de você sair de um veículo, terrestre, pular para outro, marítimo, e enquanto está no segundo, ficar preocupado com as condições do primeiro – se o riscaram, se o roubaram, se estão sentado no capô dele, se estão usando o painel para cheirar farinha, ou seja, vivemos pelos nossos meios de transporte. É ridículo.

Enquanto eu fazia esse textão de Facebook mental, mal pude perceber um jovem rapaz, com o visual vermelho do Eddie Murphy naquele seu show de stand up que tem no Netflix, que quase se jogou em frente ao carro. Ele carregava uma placa ESTACIONE nas mãos e já começou a me puxar para uma esquina. O estacionamento custaria R$ 50 por dia, mas na choradeira acabou morrendo R$ 90, o total. O lugar não era nada agradável e inclusive me fez lembrar novamente daquele missão lá atrás, do primeiro GTA, mas enfim. Estava lá pelo barco, né não?

 

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hb-Há tempos que venho nutrindo a vontade de ver qualé que era a dos cruzeiros. Grandes amigos já tinham ido e aprovaram a experiência – na real, eles gostaram mesmo da estrutura da parada toda, já que venderam algo ao estilo “universitário” e, ao chegar lá, as pessoas mais pareciam ter fundado os cursos universitários no Brasil, de tão maduras.

Por outro lado, um cara que não é tão amigo meu assim, mas que admiro pacas, o finado escritor David Foster Wallace, fez lá pelos anos 90 um #PUTA texto narrando sua experiência em um navio – curiosamente, o mesmo que eu embarcaria logo mais. Porém, o escriba desceu a lenha na experiência, que entrou para a história do jornalismo-literatura modernos sob o título de Uma Coisa Supostamente Divertida Que Nunca Mais Vou Fazer (acho que dá para ler uma versão dele no inglês por aqui – se não der também, pelo amor né, dá seus pulos que eu não tenho filho desse tamanho).

Na ocasião, é claro, o escritor foi convidado a escrever sobre o tema e vivenciar a experiência, etc. No caso aqui do Homem Benigno vocês devem bem saber que foi tudo com recursos próprios – o que não é grande coisa, pois, se comprado com certa antecedência, um cruzeirinho desses numa cabine ok sai uns milão (eu ia falar uns mil cruzeiro, mas me contive). Um detalhe fundamental para esse relato: trata-se de um cruzeiro all inclusive, e nesse all pode ter certeza que tem bebida alcoólica pro meio. O Brasil é um dos poucos que oferecem essa opção – na maioria dos destinos, mesmo aqui no país também, só o rango é liberado, sendo a bebida vendida à parte, ou através de uns pacotes, tipo 30 chopps, 15 doses de uísques, etc. Ou seja, para o cara que bebe que dá gosto, mais uma preocupação financeira, o que não aconteceria comigo.

O MV Zenith é um navio bitelo construído na Alemanha, mas que desde então pertenceu a companhias de outras nacionalidades… Nessa época ele ainda estava nos trajetos da espanhola Pullman Tour, mas parece que agora já tá na mão de um pessoal francês. Ele não é dos maiores, tem capacidade para uns 1,8 mil passageiros e mais uns 600 da tripulação, mas mesmo assim impressiona vê-lo já aportado, imponentemente branco, aguardando minha ilustre chegada (leia-se, a apresentação de comprovante do pagamento da minha primeira parcela).

 

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hb-Como bom pessimista sofrível, categoria a qual integro nesse jogo de RPG chamado vida, a experiência em um cruzeiro traz à mente muito mais coisas negativas que positivas: a catástrofe eminente, a contaminação alimentar, a endemia em alto mar, mas, dentre elas, a mais realista de todas, o enjoo (caiu o circunflexo, vocês tão ligado né?).

Sempre passei mal em embarcações, mesmo aquelas que não estão na água, como os barcos piratas de parques de diversão que se instalavam em Pirajuí. Uma vez em Camboriú fiz um passeio de escuna com uns amigos e quando chegamos na tal ilha fomos dados como mortos. Mas aí nos serviram uma Coca-Cola de 2 litros e tudo voltou ao normal, sendo que revivemos a tempo de pegar a janta que já estava paga no hotel.

Para subir no MV Zenith nas cinco maravilhosas noites em alto mar, eu já havia lido centenas de páginas sobre a prevenção de enjoo marítimo. Soube por um desses sites de viagem, por exemplo, que nos sentimos mal porque a água do nosso corpo começa a remexer também, junto com o navio, e isso faz esse trupé no organismo. Daí é vômito, tontura, fim de namoro e por aí vai.

Todo mundo fala muito do remédio Dramin, que previne o enjoo, mas parece que você tomou uma marretada de frigorífico na nuca. Apesar que um conhecido meu de Pirajuí vinha de ônibus até São Paulo com dois comprimidos no peito para não passar mal, chegava aqui na capital e ainda assistia aula o dia inteiro e, no final, ainda ia pra academia, puxava ferro e corria uns 5km – “eu ia correr 10km, mas daí fiquei com um pouco de sono”, me disse uma vez.

No entanto, meus estudos avançados mostraram uma segunda opção: o Meclin. Usado pela turma da gravidez, ele teria o mesmo efeito contra o enjoo, com o destaque de não dar taaaaaanto sono assim. Ou seja, estaria prevenido de passar mal e, por outro lado, com a bola toda para MOER ESSE NAVIO!

Comprei uma cacetada de Meclin. Deixei o carro no estacionamento. Sabia que ele dava um pouco de sono, mas era hora de prevenir qualquer mal estar. Atravessei correndo a rua, malas no lombo, antes mesmo de despachar corri até a primeira garrafa d´água, joguei o comprimido na goela: estava protegido, pronto para a batalha. Só me esqueci de um trágico detalhe. Tomei o comprimido às 9h15 da matina. Só fui chamado para embarcar umas 14h30. Você calcula o sono que passei naquelas cadeiras infernais do Porto de Santos.

 

Parte II

“Essa mulher enlouqueceu. Ela quer montar em cima de mim.

Ela pirou de vez. Tá pensando que eu sou seu cavalinho”

 

hb-Como é louca essa coisa da nossa memória vincular automaticamente alguma música com passagens de nossas vidas. A canção que lembra o primeiro beijo, a primeira fossa, o primeiro cheque de terceiro trocado. Quando moleque, lembro de ter passado uma semana em uma casa de praia horrível em Caraguatatuba, ocasião em que choveu por 7 dias e 7 noites. A chuva caía lá fora e o rádio tocava dentro da casa, enfurnada com um bando de farofeiros. A música: aquela canção infernal do Fagner cujo eu-lírico é um peixe, para em seu límpido aquário mergulhar. Jesus, Maria, José, quando ouço essa música na GazetaFM, o cheiro de protetor solar misturado a mofo vem automaticamente à memória.

Pois bem, essa música do cavalinho eu já conhecia, mas foi ela que ouvi na fila do embarque, vinda de uma turminha emblemática, que voltaria a participar de meu Cruzeiro 5 noites All Inclusive em muito breve. Eram Os Beronha.

Beronha é a mosca fêmea que tá gordona, puro ovo dentro do bucho. Por algum motivo um grupo de amigos (juro que não sei dizer o número total, pois eles se multiplicavam, tal qual o inseto voador) da cidade de Itápolis, no interior de São Paulo, se reuniram para uma farra no navio. Soube mais tarde que era o quarto cruzeiro que faziam juntos, a mesma turma, o mesmo navio, com a mesma boneca inflável em trajes menores que era carregada em cada centímetro da gigantesca embarcação. Esse ano havia um plus: uma potente caixa de som amplificada recarregável, que com umas horas na tomada, garantia um bom tempo de som altíssimo. Somada a um microfone sem fio plugado na mão dos Beronha, resultava em O Declínio do Império Americano, de Denys Arcand.

Foi dessa caixa de som que vinha a música do cavalinho. Ingênuo e subindo ansiosamente no MV Zenith, mal sabia eu que ainda ouviria essa canção, em volume máximo, incontáveis vezes durante o passeio.

 

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0041lém dos animadíssimos comparsas dos Beronha, notei outras personagens interessantes enquanto embarcava. Pensativa e praticamente em outro planeta, uma garota de estatura baixa, com um estilo de penteado e tom de pele que a faziam lembrar da diva Rihanna, mas com uma pegada mais cyberpunk. Passei a chamá-la mentalmente de a Rihanna do Fallout: New Vegas. Ela destoava completamente de toda a galera que estava para embaracar, era um enigma. Dei uma viajada e comecei a pensar em como seria o Chris Brown do Fallout: New Vegas, mas os ecos da Lei Maria da Penha me fizeram interromper o assunto.

Com uma animação mais contida, como a do garoto que espera o primeiro Playstation e abre o embrulho e se depara com um relógio CASIO, um grupo de umas vinte pessoas embarcava usando a mesma camiseta. A estampa, em transfer, era de uma grande loja de materiais de construção. Ao que tudo indica, a viagem premiava os melhores do estabelecimento e misturava idades e funções. Ali tinha da mocinha da televendas ao especialista em caixas d’água. Imagino que o freio de mão puxado da turma pode estar ligado ao fato que eles estavam sozinhos, sem família ou acompanhante. Toda a dinâmica era monitorada por um cidadão bem magrelo, cuja animação me fazia lembrar constantemente da Maria Madalena em Êxtase, de Caravaggio. Esse figura, com um daqueles telefones auriculares ridículos, tirava fotos e ensaiava gritos de guerra com a turma de empregados. Isso certamente ia parar em um jornal mural interno na loja e fomentar a inveja entre os não contemplados. Eu estava bem animado para o cruzeiro, mas nos sorrisos falsos dessa turminha eu podia arriscar que eles imaginavam ali o próprio Bateumouche.

 

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0054al qual na vinda dos imigrantes europeus nos vapores do início do século passado, ao chegar na Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, antes de qualquer burocracia eles eram empanturrados de comida. Em um cruzeiro acontece da mesma forma. Após a longa espera pelo desembarque dos passageiros anteriores, eles já te encaminham para o restaurante central para que você coma feito um padre em cidade interiorana – lembrem-se que eu estava praticamente em jejum e sob forte efeito do maldito comprimido anti-enjoo.

O desembarque anterior em si, no meu caso, foi um tanto dramático. O Zenith acabava de voltar do Rock’n Roll Cruise, ou algo assim: cinco noites all inclusive para 1,2 mil metaleiros. O porto foi tomado por cabelos longos em corte fio reto, camisas pretas, coletes de moto clube e camisetas tão coladas em rapazes gordinhos que davam a impressão de terem tentado enfiar São Paulo dentro Jundiaí, tamanho o aperto da massa adiposa no tecido.

Mas como bem narrou o equivocado David Foster Wallace, em um cruzeiro dessa natureza, o serviço é impecável. Arrumadeiras, em sua maioria colombianas e chilenas, deram um trato #violento na algazarra deixada pelos metaleiros. Minha pequena cabine estava muito limpa e cheirosíssima, mas longe de parecer com um quarto. Dá a impressão de ser um misto entre quarto de um bom hospital e uma cápsula espacial – o que dá para passar suas cinco noites tranquilamente, ainda mais levando em conta o open bar e a eterna sensação de torpor do álcool/comprimido Meclin.

 

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0041comida. Muito mais que uma embarcação de aço, o navio é um amontoado de comida que flutua no oceano atlântico. Alimentos que são preparados, grelhados, assados, marinados e fritos 24 horas por dia durante todo o percurso. O bifê central, gigantesco, é o que serve o café da manhã, o almoço e o jantar. As refeições da noite são as mais tranquilas nesse bifê, pois geralmente há o restaurante de gala para dividir os passageiros, ou então o caso daquele cidadão que comeu e bebeu feito um javaporco durante o dia e passará a noite deitado na cama ou sentado em um vaso sanitário.

O bifê central tem a incrível missão de agradar a todas nacionalidades. Por isso a variedade de culturas alimentares é muito grande, o que reduz um pouco as opções de pratos de cada nacionalidade, como é o caso da comida brasileira – daí vem aquele seu tio e diz “nunca mais me meto nisso, passei cinco dias comendo pão com ovo frito”.

É preciso saber garimpar: há sempre carne de porco em diversos pratos, batata frita, bacon, salsicha, hambúrgueres, boas saladas, massas deliciosas. Sofri um pouco com o alecrim. Tenho pavor de alecrim. Desde que morando numa república um amigo assou um frango com tanto alecrim que eu fique arrotando essa desgraça por três dias e, no final do terceiro dia, nasceu uma rama do tempero atrás da minha orelha.

 

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0044evidamente alimentado, foi o tempo de tirar a camisa, botar uma bermuda com temas de surf e subir para o 6º andar do Zenith, onde ficam as piscinas, o bar e o fervo. O navio tem oito andares no total, mas é o 6º que dá acesso a esse espaço maior para o lazer. O 7º é o bifê central e o 8º um serviço de SPA que, como não estava incluído no pacote, não quis nem ver como era. Você tá doido.

No bar da piscina consegui pegar minha bebida em pouquíssimos segundos. Disse pro tio do bar que queria dar um grau no álcool, mas que também não me derrubasse tanto pois tinha um CRUZEIRO PARA MOER. Ele misturou tequila, suco de laranja, uma camada de groselha e muito gelo. Botei aquilo na boca e o sabor era tão intenso, mas ao mesmo tempo tão doce, que dei um soco no ar de tanta alegria. A manobra derrubou parte de minha bebida bem em cima de um daqueles coitados da loja de materiais de construção. Mas parece que salvei seu dia, pois ele foi autorizado a tirar aquela camiseta ridícula. E da minha parte ficou sussa, né, pois como era All Inclusive, nem doeu. Me vê outra Tequila Sunrise aí ô, meu sobrinho.

Bebida na mão eu logo fui lá para os arredores da piscina. Estava lotado. Era ali que dava para perceber o tanto de gente que teve a mesma ideia que eu. A música do navio era altíssima e brigava de igual para igual com os decibéis da caixa de som portátil dos Beronha. Naquele momento tudo era festa.

Eis que uma voz feminina estridente surge no microfone. “Aeee pessoal agora desliga essa porcaria de caixa de som porque a festa no MV Zenith VAI-CO-ME-ÇARRRRR” e logo entrou a música do Show das Poderosas, da Anitta (como vocês já devem imaginar a essa altura, não a Malfati).

Entram os animadores/dançarinos, de costa no palco. Uma garota baixinha e dois mais compridos, musculosos, meio afeminados, mas que dançam ferozmente como se aquele navio fosse realmente afundar a qualquer momento. Era uma coreografia cheia de som e fúria – e de tatuagens exageradas, cujas últimas sessões jamais foram sequer agendadas.

Epa! Eu conheço essa garota baixinha. Acreditem se quiser: esse furacão em forma de gente era ninguém menos que a Rihanna do Fallout: New Vegas. Por isso ela estava tão alienada no porto, ela estava batendo cartão, pô. Era uma funcionária do navio.

“E agora, para a gente começar a festa, eu gostaria de um voluntário para vir aqui na frent…”

Não deixei ela nem terminar a frase. E lá de trás dei um grito, aqui Rihanna minha filha, EU quero participar dessa brincadeira em alto mar (como se o fato de estar em alto mar fizesse alguma diferença).

Juntamente com outros babacas que estavam na embarcação, participamos de um campeonato de caipirinhas ou algo do tipo. Ao término, a animadora cyberpunk veio até mim e perguntou, “de onde você é seu maluco”, ocasião que respondi, como sempre, que era de Pirajuí: a cidade que Bauru fica perto. Notei alguns risos contidos no convés.

Encerrada minha participação, caminhei apenas dois passos em direção à próxima bebida do bar, quando fui interrompido por uma senhora, nos seus 60 anos, aos prantos e quase de joelhos: “Meu Deus do céu! Você é de Pirajuí? Sou nascida em Usina Miranda, saí de lá criança” – e me abraçou.

A Usina Miranda era uma gigantesca colônia rural que durante décadas representou uma das principais atividades comerciais da região de Pirajuí.

Tudo isso em alto mar. Tudo isso após duas Tequilas Sunrise e um prato de comida temperada com algum alecrim. Blerght.

 

Parte III

stava, mais uma vez, participando de uma dessas noites de brincadeiras no interior do navio quando fui levado para fora da pequena boate onde se desenrolava uma espécie de quiz – eu teria de esperar do lado de fora, como parte da farra.

Já passava das onze da noite quando a argentina da equipe de animação usou uma barra prateada para puxar a pesada porta, que dava acesso à lateral externa do navio MV Zenith, mais ou menos na altura do 5º andar, onde ficava a boate Secret. Já tinha enxergado o navio pelo lado de fora (havíamos desembarcado em Ilhabela-SP e, depois, Búzios-RJ, para comprar miçangas e sentar nos botecos à beira da praia, na distante esperança de talvez sair sem pagar a conta), porém, estranhamente, ainda não tinha visitado essas laterais, que são como uma sacada, porém bem longas. Eu fiquei escorado nas bordas, que eram feitas de uma espécie de madeira branca, quase uma laca, onde era possível passar a mão por incontáveis parafusos negros. O chão era feito de tiras de madeira, colocadas lado a lado, separadas por uma pequena fenda, como aqueles apoios no piso de vestiários de piscina, usados para escoar a água. Pela primeira vez, desde o embarque no Porto de Santos, me vi sozinho.

Estava com uma boa dose de uísque Ballantines na mão – o oito anos, não se iluda -, em um copo alto. As pedras de gelo já estavam no meio do caminho entre o estado sólido e líquido e a bebida estava naquele exato ponto em que o DJ vira um herói, a garota de franjinha sorri e o PM com braços abertos parece lhe abraçar – e não te dar o famosos carreirão, no jargão policial.

Foi nesse instante que notei a imensidão do mar. Negro, escuro como a noite, mas incrivelmente perceptível. Um vento frio, úmido, respingava gotas no meu topete feito com gel-cola e, ao mesmo tempo, arrepiava minha pele. Era verão e, ainda assim, tinha frio. Ali, não fazia ideia do lugar em que o navio se encontrava. Mas uma coisa sabia, estávamos sob os domínios do oceano. Intenso. Infinito. Ele quem decidia a temperatura, o horário, o rumo do navio. Até mesmo quem viveria ou não. Naquele momento o Mar tinha a mesma função do zelador que guarda as bolas da quadra da molecada: era deus.

Fiquei petrificado sob a escuridão do oceano, assistindo a uma ou outra espuma que ousava se formar e quebrar momentaneamente aquele breu. Estava maravilhado. Do topo do navio sentia a felicidade da surpresa e uma sensação incomparável por estar ali, naquele exato lugar, vivendo a experiência antropológica de um Cruzeiro 5 Noites All Inclusive. Comecei a pensar em voltar, em estar lá uma outra vez. Será que ficaria maravilhado novamente? Será que a tripulação sente isso todo dia, toda noite, cada vez que se depara com o oceano durante seu trabalho? Ou já virou carne de vaca? No período que viveu em Paris, Julio Cortázar confessou em uma carta que, como residente, morria de medo de, algum dia, passar em frente à Catedral de Notre-Dame e dar só uma olhada distraída, já familiarizado com o local. Tinha pavor de ter perdido esse encanto. Eu estava assim também.

Agora só não tenho certeza se isso aconteceu com o Cortázar ou se foi o Zé Bruno, o rapaz que impermeabilizou o meu sofá, que me disse…

 

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004F mesmo andar que abrigava a boate Secret continha, também, um excelente café (com impecáveis espressos italianos da marca Lavazza) e a cereja do bolo, ou, como diria um amigo meu que confunde um pouco as coisas, a cereja do vôlei: o Cassino.

A lei que proíbe jogos de azar no Brasil e, assim, toda atividade de jogatina dessa natureza é antiga, de 1946. Foi assinada por Dutra que, antes de sequer imaginar ser uma rodovia interestadual, foi por um tempo presidente. Desde então, no território brasileiro, não é permitida a exploração comercial dessa romântica atividade. Sem falar que ainda restaram elefantes brancos, como é o caso de cidades como a mineira Lambari, que construiu um mega-cassino como ponto turístico e não teve tempo de rodar uma única roleta (hoje vive de um circuito de águas e de um carnaval universitário-transcendental que deve ser tema de uma próxima narrativa de transformação neste Homem Benigno).

Mas meu amigo: estamos em alto mar. E aqui o Cassino come solto. Enfia dólar, perde dólar. Enfia moeda, perde moeda. Aposta na roleta, perde a aposta. Eis que num caça-níqueis um tanto esquecido, faço minha aposta e… Inacreditável, ganho US$ 5!!!

Enquanto jogo, garçonetes passam com uns croquetes que mais parecem pequenos diamantes de tanto que o óleo brilha na bandeja.

Não penso em comida. Meu corpo deseja o jogo, a roda da sorte. Estaria ali a chance de recuperar o valor da viagem? Será que ganharia uma bolada? Já pensou telefonar para minha mãe dizendo que estava rico?

Perdi os US$ 5 no primeiro giro da roleta.

Olhei para o caixa, corri para pegar mais dinheiro. No caminho me vi perdendo tudo. O dinheiro que tinha no bolso, minha dignidade. Meu pequeno sítio em Atibaia-SP… Desisti. Nunca na vida tive um sítio em Atibaia.

 

 

***

 

hb-Há nos Cruzeiros uma grandiosa tradição artística. Um belíssimo teatro reserva para as 5 noites uma série de apresentações das mais variadas. Shows temáticos, como o !Viva Brasil!, em que clássicos de nosso cancioneiro eram executados pela banda da casa, com auxílio dos dançarinos. Carmem Miranda surgia no palco… BUM! Uma bomba de fumaça reveleva um Ney Matogrosso em sua fase mais perfomática, com um rebolado tão rápido que cheguei a esfregar os olhos para saber se era real – nesse momento o navio deu uma leve cambaleada, nossas cadeiras andaram um pouco, alguns copos caíram e, no palco, Ney deu um salto desequilibrado e já caiu de 4, simulando os passos de uma jaguatirica. Estava acostumado com aquilo.

Um musical off-Broadway, que mais tarde chegou a ser chamado de bota off nisso, era ROCK. Na trama, um monólogo de um sujeito com sotaque narrava a história desse estilo musical,  mesclado com canções e coreografias executadas pela equipe musical do navio. Isso tinha um Q de circo no interior, em que o carinha do globo da morte também vende algodão doce durante o espetáculo. Naquela altura do campeonato o elenco do musical era facilmente reconhecido: tinha visto o Kurt Cobain no Piano Bar tocando Tom Jobim, a Janis Joplin era a própria Rihanna do Fallout: New Vegas, já abordada aqui neste relato, Fred Mercury eu vi tocando maracas na noite caribenha e tenho quase certeza que o Raul Seixas era o tio que ficava dobrando toalhas ao lado da piscina.

Uma bela peça de teatro envolvendo uma dupla de palhaços (do grego clown) uruguaios trazia em forma de humor as comoções da doença. Em um momento muito marcante, o palhaço homem, Budi, descobre-se paraplégico, momento em que seu amor pela palhacinha Sequicido é posto à prova em um longo abraço. O silêncio e a tensão performática hipnotizam a plateia que lota o teatro do Zenith – momento interrompido, apenas, pela canção do Cavalinho, que vinha em altíssimo volume da porta, ocasião em que o público emocionado pôde notar que a rapaziada dOs Beronha estava pegando o elevador ao lado.

 

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004F começo da experiência em um Cruzeiro 5 Noites All Inclusive é de estranhamento. Há muita gente após o embarque, pessoas impacientes perambulando por filas até chegar às cabines. O interior de um navio desse naipe lembra um hotel antigo, clássico, cheio de espelhos e corrimãos brilhantes, com um carpete espesso, mas incrivelmente limpo. Aliás, a limpeza é uma máxima no código de honra dessa turma. A todo momento é possível perceber o cheiro perfumado de produtos desinfetantes, aquela sensação quando você chega em seu apartamento momentos depois dele ter sido encerado. Isso em tudo, nos quartos, corredores, salas de lazer, banheiros.

Ah, os banheiros. Eu arriscaria dizer que, fora os lavabos particulares, das cabines, um navio do porte do Zenith deve ter uns cem banheiros. É impressionante a forma como eles se multiplicam. Às vezes são grandiosos e acompanham a decoração da embarcação, outras são totalmente diferentes, como se fossem uma cápsula do futuro enfiada ali – e há ainda os que classifiquei de secretos. Há vários banheiros em locais estratégicos, que só os experts na arte do WC podem perceber.

Ao lado da boate Secret, por exemplo, há um grande e pesado vaso ornamental, pois acredite, atrás dele há uma portinha e um banheiro. Praticamente impossível de entrar, mas lindo por dentro, uma pequena joia da arte sanitária. Na piscina, o piso menos sensato de toda viagem, a vontade de urinar é uma constante (e só piora conforme as milhas náuticas são percorridas). Há momentos em que a fila é tão grande para mijar que dá a impressão que estão colhendo assinaturas e autenticações à beira do mictório. Pois acredite você que encontrei uma pequena privada escondida atrás da ducha. Se a vida fosse um Xbox, certeza que faria o barulhinho de achievement.

Por fim, um banheiro curioso, ao lado do teatro. Grande e com detalhes em mármore, guardava uma curiosidade: sentado à privada, era possível acompanhar com boa qualidade de som, o que ocorria no palco (não me perguntem por onde vinham as ondas sonoras, por favor). Foi de lá, por exemplo, que pude ouvir com tristeza que no espetáculo ROCK fizeram uma homenagem ao “rockeiro” brasileiro Tim Maia – soube depois que a produção musical era argentina.

 

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0054equila, vodka Stolishnaya, uísque com água com gás, tequila de novo, chopp (bom) tirado na hora, espumante gelado, batidas com sucos deliciosos vindos de contagiantes bisnagas de plástico na mão do barman. Misture isso a sol torrando, brisa do mar e David Guetta rolando pelo DJ do navio, forçadamente mixado com 60 Dias Apaixonado na caixa de som portátil dos meninos. O NAVIO ESTAVA SENDO MOÍDO.

Porém algo destoava do cenário de farra: um jovem muito agradável, magrinho e tímido, cujo visual não consegui definir mentalmente se era o do cantor Silvio Brito quando jovem ou do Guilherme Arantes velho. Esse menino era tão gente boa, tão amável que, em uma conversa sobre camarões, sem perceber, o chamei de “filho”.

Pois bem, esse sujeito, cujo nome não me recordo. Estava só de leve, dando umas bicadas no Amarula. Me explicou delicadamente o porquê: “não estou bebendo muito pois hoje à noite devo meter“.

Creio que seja um pouco exagerada essa versão que os Cruzeiros All Inclusive são a mistura ideal entre Calígula e Titanic. É claro que, o pessoal que vai solteiro para um passeio desses, não deixa de estar entrando numa espécie de Rage In The Cage, pois não há para onde correr, mas também não é pra tanto.

Me falaram que nos tais cruzeiros universitários tendem a rolar mais chances de se dar bem. Mas duvido muito, já que parte do tempo essa molecada às vezes tem tarefa de escola, estudar para a bimestral, etc.

Até lembrei de um amigo vacilão que esteve em um cruzeiro e xavecou, durante todas as 5 noites All Inclusive, uma bela morena, insistentemente. Na última noite, ele desabafou que queria muito ficar com ela… Ela disse que sim, e deu o preço: 100 dólares. O cidadão não percebeu, nas cinco noites que se passaram, que o buraco ali era mais embaixo. “Mas você não me perguntou”, disse a garota. Ele, revoltadíssimo e com os valores ofendidos, subiu para sua cabine pisando duro. Depois se arrependeu e dormiu com US$ 200 no bolso da bermuda cargo.

 

SUGERIMOS QUE PARA CONTINUAR A LEITURA DÊ PLAY NA CANÇÃO

 

004Das, no fim das contas, todos nós dormimos um pouco arrependidos. Na outra manhã, logo às 8h, uma voz feminina com sotaque espanhol no sistema de som interno anunciava que era hora de acordar. Pedia que deixássemos nossas malas “en la porta de la cabina” e que descêssemos para “uno muy rápido breakfast“. O último.

Sabe, vou falar pra vocês, muita gente critica essa opção de fazer um cruzeiro. Diz que é coisa de pobre, aliás, da nova classe média, que é uma opção muito enlatada, que são exageros de quem não tem classe, ou mesmo, criatividade para um roteiro melhor.

É difícil a vida de Cruzeiro All Inclusive em dias em que o chique é ficar batendo perna na Europa debaixo do mormaço, queimando o lábio na friaca, andando de bicicleta velha e pagando R$ 60 a hora, comprar uns bourdeaux no Carrefour para enquadrar ele no Instagram. Hoje o turismo é muito mais ligado à careta que você vai fazer ao lado da Gioconda (e do segurança mal-humorado que acabou de dobrar plantão, colado na tela) do que às sensações e experimentações que o processo da viagem resulta.

Nesse âmbito quem sou eu para falar o que para vocês? Não estou aqui para dar lição de moral em ninguém. Cê acha… Se tu vê o meu talão de prestações começa a chorar e vai de joelhos até Aparecida do Norte.

Mas posso dizer, de coração, que foi muito gratificante para mim passar os últimos cinco dias apenas preocupado com os horários das refeições, com o tanto de gelo que tinha na bebida, se tomaria ou não ou décimo espresso naquela manhã. Foi inenarrável respirar, por quase uma semana, a vida do navio. Enxergar a vitalidade e, por que não, os sonhos sob as tatuagens da animadora Rihanna do Fallout: New Vegas; os obstáculos e as vitórias daquela turma da loja de materiais de construção que, apesar do guia que força um pouco a amizade, fizeram por merecer aqueles dias de descanso, por terem trabalhado feito doidos no ano que passou – eles estavam brindando ali o seu suor.

Enfim, foram dias plenos, intermináveis como as gargalhadas que vinham daquela galera dos Beronha, que encenavam naquele momento, o invejável frenesi de quando se é jovem e quando se tem uma turma da pesada, daquelas que só respira quando acaba a bebida, ou quando a equipe de segurança resolve agir.

O Cruzeiro All Inclusive durou 5 noites, mas acreditem se quiser, se colocarmos tudo isso no papel, como estou fazendo nesse exato momento para vocês, veremos que muito mais que isso, eu passei ali 5 vidas.

 

Fim.

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As imagens dessa edição foram proporcionadas pelo magnífico @guimedeiros, meu sobrinho

 

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