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A cada ano, nas escolas, nas exposições de aniversário da cidade e, mais recentemente, na feira de exposições Faepira, é comum haver aquele espaço dedicado aos “filhos ilustres de Pirajuí”. As pratas da casa são homenageadas em biombos, fotos e painéis com minibiografias. É possível encontrar material sobre essas pessoas, também, em endereços na internet, da própria prefeitura.

Certamente foi num desses episódios, em algum momento de minha formação escolar que descobri que Naum Alves de Souza era nascido em Pirajuí. Sabíamos da existência dele pelas proporções de seus trabalhos, talvez o mais popular deles: a criação, na versão nacional do programa Vila Sésamo, de seu mais famoso personagem, o boneco Garibaldo.

A essa altura, diante das homenagens feitas na grande imprensa após a morte do diretor, autor, cronista, cenógrafo e figurinista, já está mais que claro que sua obra vai muito além (muuuuuuito) desse famoso trabalho infantil. Mas, como pirajuiense, tive a curiosidade de saber um pouco mais sobre o Naum que, até os 18 anos de idade, viveu na terra do Rio do Peixe Dourado. Como foram esses anos? Onde morava, o que estudava?

Conversei com o Francisco Bonadio Costa, uma fonte constante deste site Homem Benigno e de praticamente todas minhas dúvidas pirajuienses e tive algumas informações sobre a “fase pirajuiense” do Naum. Aliás, Bonadio era, também, seu amigo de infância.

Foi ele quem me contou, por exemplo, que o jovem Naum residia no centro da cidade, à esquina do restaurante Castelinho, praticamente no cruzamento entre as ruas 9 de Julho e Riachuelo.

“Ele foi aluno do Externato Santa Maria (hoje Prevê), do Bilac e do Colégio Estadual e Escola Normal Dr. Adhemar de Barros, hoje Pujol.  Foi meu colega no Externato e Pujol”, me contou Costa.

No ano de 2009, a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo publicou, em sua Coleção Aplauso, uma edição sobre sua vida, sob o título: Imagem, Cena, Palavra. O depoimento foi dado a Alberto Guzik e percorre todas as etapas de sua vida profissional. Os trechos que falam de sua infância mostram um pirajuiense apaixonado, que tem lembranças de suas passagens estudantis e que, curiosamente, coloca essas experiências em suas obras. Seguem alguns excertos e, ao final deste post, o link para o download gratuito da obra.

“Nasci em Pirajuí, interior de São Paulo, cidade pequena rodeada de cafezais. Talvez tenha sido esse um dos últimos endereços paulistas do café. Não sei com precisão, mas, no fim do século 19, a família de meu pai perdeu uma grande fazenda cafeeira na Serra da Bocaina. Às vezes, fantasio que os tios e meu pai nunca se conformaram e continuaram em busca do café e meu pai foi parar em Pirajuí por causa dele. Desde que me percebo por gente, eu me lembro daquele aroma, daquele cheiro que saía das torrefações e envolvia a região.

[…]

Meu pai, assim como seus irmãos, trabalhava para a forte empresa Tilibra e a filial de Pirajuí era um misto de livraria, papelaria, tipografia, loja de brinquedos, perfumaria. Seguindo as festas do calendário, vendia artigos carnavalescos – confete, serpentina, lança-perfume – e foguetes e rojões nas festas juninas.

[…]

Nasci em 1942, e quando chegou a idade meus pais me matricularam na escola pública, no Grupo Escolar Olavo Bilac, único na cidade. Naquela época, o ensino público era muito bom. Estudar na escola pública era sinal de valentia. Educação para ricos, médios e pobres em tempos getulistas e ademaristas. Era uma escola árida, sem graça, três horas seguidas, sem intervalo para recreio. Talvez para maior rendimento do espaço escolar, criaram o modelo de três períodos de três horas cada. Não tínhamos, por exemplo, aulas de arte ou educação física. Cantávamos hinos pátrios, obrigatórios, o regime não brincava.”

 

Lamentei ao Francisco Bonadio o fato de, mesmo vivendo há uma década em São Paulo, não ter tido a oportunidade de conhecer o Naum pessoalmente – li que a jornalista Cristina Camargo escreveu algo parecido em seu Facebook. Bonadio, como sempre, fechou com chave de ouro: “Foi uma pena mesmo, pois seria um conhecimento enriquecedor de uma pessoa importante, premiadíssima, humilde e sempre reverenciando sua origem pirajuiense”.

Definitivamente, Pirajuí começa a semana com menos brilho. Perdemos uma de nossas estrelas.

 

[foto de capa: PAULO CESAR DA SILVA]

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Leia mais sobre Pirajuí nos nossos Capítulos Pirajuienses

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Uma cronologia da obra de Naum Alves de Souza até 2008, extraída da Coleção Aplauso (2009).

 

2008

  • No Natal a Gente Vem te Buscar (teatro): texto, direção, cenário e figurinos de nova produção da obra

2006

  • Lançamento no Brasil e em Portugal do livro Teatro, editado pela CenaLusófona, reunindo 14 textos teatrais do dramaturgo

2005

  • Os Pescadores de Pérolas (ópera): remontagem da produção de 1995 2004
  • As Pequenas Raposas (teatro): direção • A Aurora da Minha Vida (teatro): texto, direção e cenário • Soppa de Letra (teatro): roteiro, com Antonio de Bonis e Pedro Paulo Rangel, direção e figurinos

2003

  • Jenufa (ópera): direção, cenário e figurinos

2002

  • Doze Movimentos para um Homem Só (balé): roteiro, direção, cenário e figurinos
  • Longa Jornada de um Dia Noite Adentro (teatro): direção

1997

  • Bailes do Brasil (balé): roteiro, direção, cenário e figurinos • O Pivô (teatro): texto, direção, cenário e figurinos • Strippers (teatro): texto, direção, cenário e figurinos

1996

  • Do Amor de Dante por Beatriz (teatro): cenário e figurinos

1995

  • Água com Açúcar (teatro): texto, direção e cenário
  • Os Pescadores de Pérolas (ópera): direção, cenário e figurinos

1994

  • Festas de Amigo Secreto (teatro): texto e direção
  • As Guerreiras do Amor (teatro): cenário e figurinos

1993

  • Salão de Baile (balé): roteiro, direção, cenário e figurinos
  • Ato de Natal (teatro): texto, direção, cenário e figurinos direção

1992

  • Ópera dos 500 (ópera): roteiro, direção e figurinos

1990

  • Big Loira (teatro): texto, adaptado de contos de Dorothy Parker, e direção 1989 • Lulu (teatro): direção, cenário e figurinos
  • Suburbano Coração (teatro): texto e direção

1988

  • O Romance da Empregada (cinema): roteiro, filmado por Bruno Barreto 1987
  • Cenas de Outono (teatro): texto (adaptado de contos de Yukio Mishima), direção e cenário
  • Dona Doida, um Interlúdio (teatro): direção, cenografia e figurino, para textos de Adélia Prado
  • Francisco (show de Chico Buarque): direção
  • Nijinsky (dança-teatro): texto, direção e cená- rio (com Miro)

1986

  • El Grande de Coca-Cola (teatro): direção • Vera (cinema): cenário e figurinos do filme de Sérgio Toledo

1985

  • Um Beijo, um Abraço, um Aperto de Mão, versão feminina (teatro): texto, direção, cenografia e figurinos
  • A Divina Sarah (teatro): cenário e figurinos

1984

  • Um Beijo, um Abraço, um Aperto de Mão, versão masculina (teatro): texto, direção e cenário • Gonzaguinha (show): cenário
  • A Hora da Estrela (show de Maria Bethânia): direção, cenário e figurinos • Kleiton e Kledir (show): cenário

1983

  • Circo no Arena!/Viva o Circo! (teatro para jovens): texto, com Flávio de Souza
  • O Grande Circo Místico (balé): roteiro e ilustrações da capa do CD • O Romance da Empregada (cinema): criação do roteiro

1982

  • Petruchka (balé): adaptação do roteiro, dire- ção, cenário e figurinos

1981

  • A Aurora da Minha Vida (teatro): texto, direção e cenário
  • O Homem Elefante (teatro): cenário e figurinos
  • Jogos de Dança (balé): cenário e figurinos
  • À Moda da Casa (teatro): cenário e figurinos

1980

  • Não me Maltrate, Robinson (teatro): cenário e figurinos
  • Valsa para 20 Veias (balé): roteiro, direção, cenário e figurinos

1979

  • Eva Perón (teatro): cenografia e figurinos • No Natal a Gente Vem te Buscar (teatro): texto, direção e cenário

1978

  • Depois do Arco-Íris (dança-teatro): texto (com Alberto Guzik) e direção • Macunaíma (teatro): cenário e figurinos
  • Margarida Margô do Meio-Fio (dança): dire- ção, cenário e figurinos

1977

  • Corações Futuristas (balé): cenário e figurinos
  • Era uma Vez (balé): cenário e figurinos
  • Maratona (teatro): texto, direção e cenário

1976

  • Folias Bíblicas (teatro): autor de um dos esquetes, colaboração no cenário e figurinos • Nosso Tempo (balé): cenário e figurinos

1975

  • Cenas da Última Noite (teatro): corroteirista e diretor
  • Falso Brilhante (show de Elis Regina): roteiro, com Miriam Muniz, confecção de bonecos, cenário, figurinos, ilustrações e design gráfico do programa e da capa do disco
  • Ai de ti, Mata Hari (teatro): cenário
  • O Incidente no 113 (teatro): cenário e figurinos 1974
  • A Fabulosa Saga de Violeta Allegro (teatro): corroteirista e diretor
  • El Grande de Coca-Cola (teatro): cenário e figurinos

1973

  • São Clemente (teatro): corroteirista e diretor

1972

  • Miscelânea (teatro): ator e corroteirista. Este espetáculo marca o início das atividades do grupo Pod Minoga
  • Vila Sésamo (televisão): criação de bonecos na coprodução TV Cultura/TV Globo

1971

  • Hotel San Marino (teatro): ator, corroteirista e coordenador • Julia Pastrana (teatro): ator, corroteirista e coordenador

1966 a 1969

  • Professor na Escola de Arte da Fundação Armando Álvares Penteado, São Paulo
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