Os bailes e festas no Parque Clube de Pirajuí são famosos pela presença de bons conjuntos musicais, que costumam exibir banda completa, com dançarinos, luzes e outros efeitos.
No entanto, por volta das 23h de cada evento, ou seja, no comecinho da noite, esses grupos têm um repertório, digamos, mais light.
Não sei se por tradição ou exigência da direção do clube, as primeiras sequências de músicas são mais leves, clássicas e, principalmente, dançantes.
São boleros, valsas e outras canções que marcaram época. Da mesma maneira que sempre tocam essas músicas, há outra cena que sempre se repetiu, nas últimas décadas, nesse tipo de evento.

Ao centro do salão, dançando, sob os olhares admirados dos primeiros convidados que começam a lotar as mesas do PCP, estão Dona Nair e Dirceu Bonadio. O exímio dançarino nos deixou hoje, em Bauru, aos 91 anos.
Mas não pensem que estamos falando de uma dancinha de “dois passos para lá e dois para cá”. Nada disso. Havia ali talento, dedicação e conhecimento.
Os dois alternavam os estilos, passos e giros. Gostava muito do semblante do casal dançante. Apesar de saberem que estavam arrasando na pista, havia sempre um tom de seriedade, concentração, respeito e elegância.
Esse é o ponto que quero chegar. Dirceu Bonadio sempre foi um devoto da elegância – um valor que ele carregou por toda a vida, na profissão, no gosto musical e na forma de se vestir e se portar.

O homem dos bons sons
No final dos anos 1990, tive a oportunidade de escrever uma coluna semanal no semanário O Alfinete, em Pirajuí – à época, no pequenino formato impresso, como ficou conhecido no passado de “jornalzinho do cinema”.
Tivemos a ideia de ouvir de alguns pirajuienses qual era o seu gosto musical. Radialistas, DJs e músicos eram entrevistados e escolhiam suas “10 mais”.
Passando em frente ao seu lendário salão de beleza Dirceu Moda Jovem, na Rua Campos Salles, lá estava ele, apesar da baixa estatura, mostrando toda sua imponência, com as mãos nos bolsos, em pé, no aguardo do próximo freguês.
Pensei em ouvi-lo para a coluna e ele logo me chamou lá para dentro. O aparelho de som já estava tocando, mas foi interrompido com imensa rapidez. Ele selecionou alguns CDs e, um a um, deu play nas suas faixas favoritas, ressaltando dados sobre os intérpretes, ano de gravação etc.

Ao término de umas cinco canções executadas inteiras, assim que chegou um cliente, ele disse, com toda facilidade: “anote aí, menino, em ordem decrescente, as minhas 10 mais”.
E foi falando o seu ranking – que não me recordo exatamente, mas lembro que entre as primeiras estavam Moonlight Serenade e, é claro, Besame Mucho.
Aqui faço uma observação sobre os Bonadio e a música – vale lembrar do Macarrão, ou DJ Bonamix, seu filho, que fez história na época da boate Kanopus e que, também, fazia a cabeça da galera com as músicas (eletrônicas) que ele garimpava.
Primo distante, o Francisco Bonadio Costa também é um amante da boa música e chegou a manter por muito tempo um programa completamente dedicado ao tema na Rádio Jornal FM – do qual o Dirceu era ouvinte assíduo.

O adeus a Dirceu Bonadio
Em março de 2016, por ocasião das comemorações dos 101 anos de Pirajuí, o cabeleireiro Dirceu Bonadio foi um dos homenageados entre os títulos de Munícipes Ilustres da cidade.
Pela longevidade, pelo ponto comercial no coração de Pirajuí e pela devoção à música e à dança – comentam que ele e a inseparável Nair foram até premiados em competições no passado – ele é, certamente, um personagem do município.
“Dom Dirceu”, como eu o chamava, hoje deixa para nós o seu legado, uma história intensa de valorização e devoção a tudo aquilo que era belo e elegante.
Eunice Ramos da Silva
22/02/2020 — 01:08
Que lindo,merecidamente essa homenagem a esse senhor que fez parte do grande passado de Pirajuí.
funcionário Marcelo
17/03/2020 — 04:52
Certamente, um inesquecível! Obrigado pela leitura, Eunice!