Aconteceu em um quilão em Caxias do Sul

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Notei que de fato havia envelhecido quando, certo dia, troquei com naturalidade a opção ‘self-service coma à vontade’ pela modalidade restaurante por quilo, ou seja, o quilão. Naquela noite chorei. Não tanto pela percepção do amadurecimento mas, principalmente, por ter comido uma ricota estragada.

Estive recentemente no maravilhoso Estado do Rio Grande do Sul. Não o conhecia, aliás, o conhecia apenas de vista, pelos mapas e por meio de alguns vídeos no YouTube.

Para ser mais exato, estava na cidade de Caxias do Sul, entre ladeiras e subidas do belo município de quase meio milhão de habitantes na região da Serra Gaúcha (quem tem Wikipedia, tem tudo hoje em dia).

Eu estava quase para deixar o local quando a fome deu aquela apertada, digna do primeiro mugido de um bezerro. Abastecia o carro no momento e, num misto de matemática e sofrimento, me ajoelhei no chão do posto de gasolina diante do alto preço do petróleo. Falei ao frentista de meu sentimento, ele deu de ombros. O caixa é logo ali, senhor. Tenho fome, disse novamente. Aqui é só débito, senhor. Pai, por que me abandonaste?

Um segundo frentista que girava um esfregão dentro de um balde para passar o tempo (na falta de um Candy Crush), me chamou de canto. Está com fome? Tá vendo aquele prédio cor laranja ali, é um quilão maravilhoso.

Como havia dirigido por muitos quilômetros, havia afrouxado o cinta na calça e, ao atravessar a rua a pé até o ristourante, naquela corridinha para escapar do sinal aberto, exibi uma de minhas nádegas à população caxiense. Um caminhão da Coca-Cola buzinou fom-fom. Não me senti assediado. Pelo contrário. Era uma buzina de escárnio.

Externamente o quilão não trazia lá uma boa impressão. E aqui faço uma pausa para citar que é muito difícil discorrer sobre esse tema após a aula magna produzida pelo jornalista palmeirense radicado em Madrid, Rafael Capanema (pronuncia-se Capanema) para seu veículo, o expoente BuzzFeed Brasil. Mas vamos que vamos, é Deus no Comando.

Do lado de dentro, o ambiente era mais agradável. Um sujeito baixinho, de boné amassado na cabeça, me entregou uma comanda. A comanda da discórdia (você saberá depois). O estabelecimento era bem grande, devia ter entre 20 e 30 mesas fixas (simples e duplas) e a comida era servida em grandes aparadores, ao fundo do salão, dispostos em formato de L. Como funciona a casa, chefia? Oi?! A casa, como funciona? Oi?! Como já estava com a comanda na mão e vi a fila para pegar a comida, na hora me liguei que a minha pergunta era totalmente desnecessária.

Fui até a mesa deixar meus pertences e rumei em direção ao assunto-tema desse relato: o quilão! Mas não foi assim tão simples, como eu estava carregando uma mochila que mais parecia um paraquedas, a deixei escorada em uma mesa dupla. Após dar cinco passos em direção ao aparador das saladas, olhei para atrás e quem estava lá, ao lado da minha mesa? O sujeito de boné da entrada. Com um semblante de reprovação. Você não pode se sentar, sozinho, em uma mesa para quatro pessoas. Mas, meu amigo, é por causa dessa mochila grande e o local estava vago. Oi?!

Ok, lá fui eu para uma mesa menor e, finalmente, para o rango. O preço era muito barato. E a variedade, espetacular. Passados vários metros de pratos quentes, frios, saladas e, acreditem, nessa hora entrei em desespero, havia ainda seis pizzas grandes fatiadas, de sabores mistos (inclusive doces), para o deleite do espectador.

De prato fundo na mão, me preparava para escolher entre folhas, cebolas roxas, fresquinhas, bonitas, ah! Tinha até queijo com goiabada no meio, presos em um palito de dentes, como aquele Romeu e Julieta, não o clássico, mas o brasileiro, interpretado pelo Marco Ricca.

Fui para o arroz. Só um pouquinho, afinal, o restaurante era por quilo, não é mesmo. Feijão (preto), um pouco de macarrão. Sempre separado, se botar um em cima do outro eu já não como. Pode chamar até o magistrado Sergio Moro que ele não me faz comer isso. Bife. Aliás, melhor ainda, algo que o Sul me apresentou: bife de fígado à milanesa. Meu amigo. Isso é que é vida. Isso e o Canal Off.

No entanto, minha odisseia pelo alimento foi bruscamente interrompida. Não apenas a minha. Todo o quilão parou para ver a desenvoltura de um pequeno carteiro. De pele bem branca e cabelos finos espetados, usava a camiseta amarela da Companhia Brasileira de Correios e Telégrafos. Seu pescoço exibia detalhes de uma tatuagem em vermelho, provavelmente um emblema de time de futebol, o Internacional. Ao me aproximar, notei que era o rosto arredondado de sua falecida avó, que tinha as bochechas bem vermelhas.

No pescoço era possível notar, também, as veias saltadas. Era o peso do prato. Ao pagar a opção ‘coma à vontade’, o jovem entregador de cartas desafiou a gravidade e a anatomia humana. Sua bandeja era carregada como uma bigorna e reunia praticamente todas as opções do cardápio. Sobre aquela louça branca, formava-se um apocalipse alimentício onde molhos se confrontavam, carboidratos coexistiam e proteínas sofriam mutações uma sobre as outras. Quando o prato já emulava a silhueta do Monte Everest, o carteirinho tirou sua carta da manga. Cobriu a montanha de comida, como num trevo de quatro folhas, com quatro pedaços de pizza de calabresa. Eu deixei minha humilde mistura no aparador e puxei aplausos. O público do quilão não resistiu e acompanhou o movimento. O carteiro desfilou no salão com seus 3,5 kg de rango. Diante da emoção, uma mulher deu a luz a um pequeno garoto que viria a ser o próximo imperador do Tibet.

Pronto. Meu prato estava feito. Prato, feito. PF. Já tinha pensado nessa relação? É semântica.

Chegou a hora de pesar. Minha perícia em restaurantes por quilo costuma ser mais ou menos cirúrgica. Como 400g. Se estou sem grana, como 300g. Se a firma está pagando, como 1,2 kg.

Uma magra e simpática senhora ficava atrás de uma balança da marca Filizola™. Rosto fino, olhos claros, cabelos castanhos já indo para o loiro. Senhor, temos um problema com o seu prato. Meu Deus, o que foi agora, minha senhora? Tenho a informação que o Sr. possui uma comanda adicional. Como assim? Aaaa olhei para a porta, e lá estava o sujeito baixinho do boné com um olhar de reprovação. Está certo, minha senhora, deixei lá na mesa, está vazia, marque aí nessa por favor que depois eu a devolvo. Me desculpe, mas a orientação é para que eu não libere o alimento até que o senhor traga a comanda virgem.

Meu pai amado, nessas horas o meu estômago já estava parecendo uma urutu cruzeiro querendo comer o pâncreas. Fui lá peguei a bendita comanda e daí sim a policial do quilão me liberou para prosseguir viagem. O senhor vai beber o que?

Nossa, a comida estava boa demais. Demais da conta. Paguei com gosto, apesar dos pesares.

Saí alimentado e pronto para viajar. Na porta do estacionamento, fico sabendo que se me carimbam a comanda no restaurante, fica de graça.

Volto lá, apressado. A senhorinha do caixa me recebe. Carimbo? Ah, é com ele ali. E aponta para o sujeito do boné. Carimbar a comanda! Ele assente com a cabeça. Chego até perto dele. Então, amigo, é que eu preciso apresentar esse papel para o estacionamento ser de graça. E ele:

– Oi!?

 

 

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