Reflexões sobre o tamanho do hambúrguer em Pirajuí (e no Interior)

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A imagem acima é um registro do ano de 2004 que mostra o tamanho do hambúrguer de Pirajuí. Apesar de ter parte de seus pixels ocupados por maionese (caseira) e catchup, a foto exibe dois belos exemplares do X-Americano, lanche muito popular nos trailers locais e que, naquele CEP (único, 16600-000), inclui: pão, queijo, presunto, salada, ovo frito e, um diferencial, hambúrguer!

Ressalto a peculiaridade pelo fato de ter pedido um Americano em uma padoca na Zona Norte de São Paulo e ficar procurando no chão, ao lado do balcão, para saber se a carne havia caído do lanche. “Não, não. Aqui no DDD 11 não vem mesmo”, me explicaram.

Durante praticamente toda minha juventude, o ritual que aparece na fotografia se repetia a cada domingo. Após a farra do sábado, resguardava o domingo para ir à missa com amigos e, terminada a celebração, descíamos até o Lanchódromo (uma grande área aberta e acimentada, onde estacionam uns cinco ou seis trailers de lanche) para comer.

A questão da missa é até irônica pois era comum que, enquanto comíamos o lanche, um de nós (não vou revelar nomes), subtraísse uma bisnaga da deliciosa maionese para consumir em casa – nas épocas de frio era ainda mais fácil, pois o tubo viajava no bolso da jaqueta.

Por que o hambúrguer artesanal em São Paulo é pequeno?

Em épocas de tantos hambúrgueres gourmets artesanais, blends de carnes diversas, sabores e experiências gastronômicas inspiradoras, ainda considero muito pequeno o tamanho desses lanches aqui de SP.

Mesmo os que são famosos justamente pelas proporções, ficam abaixo dos gigantescos hambúrgueres de Pirajuí (e acho que de cidades do interior como um todo, não é mesmo?).

Outra coisa que me intriga sobre a onda artesanal dos burgues é essa paixão pela carne crua. Como o hambúrguer ficou mais alto, dá a impressão que ele vem sempre meio sangrando, não é mesmo? Parece um desafio tirar uma carne bem passada sem que ela fique parecida com um quibe do Habib’s gigante.

Hoje Pirajuí também tem opções de hamburguerias artesanais – é o caso da excelente D20 Burguer (o nome faz referência ao dado de 20 lados, utilizado para jogar Dungeons & Dragons. O proprietário, Samir, é um grande amigo e até jogávamos RPG juntos). Há ainda outras que não experimentei, como a Vero’s e a do Kauê que também dizem ser muito boas.

Mas a realidade é que são conceitos diferentes. O lanche de trailer é brutalmente maior e, como tem padrões de exigência e originalidade menores que os artesanais, são sandubas mais baratos.

Um lanche do tamanho de um PF

Um simples X-Salada em Pirajuí tem um tamanho que assusta quando repartido no prato. É tão grande que chega a ser difícil de “manobrar”.

Costumo pedir o lanche no saquinho. Quando chega, ele tem as proporções de um eletrodoméstico embalado no saco plástico.

É possível sentir bíceps e tríceps trabalhando enquanto você o leva até a boca. Se não souber onde morder, pode ser um perigo para a mandíbula. O que tranquiliza é o fato de a cidade de Bauru (localizada na região da Grande Pirajuí) ser referência em cirurgia e tratamento buco-maxilar.

O pão-de-hambúrguer é gigantesco. Se assemelha ao pão-sírio porém mais alto e fofo. Reúne carboidratos suficientes para encher uma laje do Minha Casa Minha Vida.

A carne do hambúrguer em si é baixa na altura mas tem o raio de um disco de polimento para enceradeira. Costuma vir em caixas de papelão e tem suas unidades congeladas – uma vez ouvi dizer que compram essa carne em Lins (na região Noroeste de SP, não confundir com Linz, na Áustria, cidade para onde Adolf Hitler mudou-se, ainda na infância).

Houve uma época assustadora na história da gastronomia de rua de Pirajuí que, para muitos, é chamada da era do “Advento do X-Gordinho”. Não me lembro qual foi o trailer que iniciou a proposta, mas esse Demogorgon dos lanches era simplesmente um X-Tudo multiplicado por dois – à exceção do pão.

Dois ovos, duas camadas de queijo, duas de presunto, duas porções de bacon, dois hambúrgueres e uma pequena horta de alface.

O Gordinho era para os fortes. Conheci poucas pessoas que o devoravam com frequência. Uma delas reproduzia um ritual próprio, um procedimento de combate, para que a experiência gastronômica fosse um sucesso.

Pedia o lanche no saquinho, sem que fosse cortado ao meio e, assim que entregavam o pedido, ele fazia um pequeno rasgo no plástico e deixava todo o óleo, azeite e gordura escorrer pela calçada. Daí, depois disso, como diz meu amigo Fábio Isaías, era só pena que voava!

tamanho do hambúrguer

Belíssimo exemplar de hambúrguer servido no Tip Top, em Pirajuí (foto: Facebook do camarada Dennys Yoshida)

O lanche como acontecimento social

Na minha infância e adolescência, comemorei alguns aniversários em família comendo lanches.

Se não me engano, celebrei minha aprovação no vestibular devorando um X-Burguer.

Ainda hoje percebo, nas mesas ao redor, aniversários de namoro e casamento sendo celebrados diante das gigantescas refeições – brindados por uma congeladíssima Coca Litro, garrafa de vidro, ao centro.

História real: tenho um casal de amigos que, terminada a grandiosa cerimônia de casamento, com os convidados deixando o salão, perceberam que, após toda a correria do evento, ainda estavam com fome. De terno e vestido branco, noivo e noiva desceram para o Adilson (que costumava ficar aberto até as 4 h) para saborear o primeiro lanche no novo estado civil.

Durante os anos em que fui colunista do semanário O Alfinete, em certa ocasião resolvi ouvir de “celebridades” locais suas opiniões relacionadas aos lanches. O padre da cidade, o capitão da PM, a professora famosa, várias personalidades opinaram sobre quais os ingredientes que compunham o hambúrguer de sua preferência. Houve certa comoção popular com o tema.

Foi curioso que, como sempre, também colocava meu amigo-irmão Pedro Bola nessas listas. Ele respondeu que seu lanche preferido era o “Misto-Quente, porém sem presunto”. Dias depois, a redação do jornal recebeu uma carta corrigindo: “Esse sujeito na verdade gosta de um Queijo-Quente”.

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Bom, era o que eu tinha a falar sobre o tamanho do hambúrguer de Pirajuí e de outras cidades do interior. Deu até fome.

Se você é de Pirajuí, comente aí com histórias e memórias sobre essa cultura dos lanches de trailer.

Se você não é de Pirajuí, quando estiver passando pelo trevo, na Rodovia Marechal Rondon, entre na cidade e gaste aí seus R$ 10, R$ 12 para saborear um também!

 

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