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Semana passada todo mundo estava falando do Zé do Caixão, né?

Também, não era para menos. Um pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia postou uma fotografia do lendário cineasta José Mojica Marins no meio de um culto, afirmando que ele teria sido “batizado” na religião. A internet virou um caldeirão borbulhante diante dessa frase. Tudo não passou de um mal entendido, a postagem original foi apagada e tanto a igreja quanto a família Marins se manifestaram sobre o tema. Inclusive escrevi sobre isso nessa reportagem para a VICE Brasil.

Maaaas, essa história toda me fez lembrar de um outro momento memorável de minha vida. Em 2006, tive a oportunidade de acompanhar as filmagens de A Encarnação do Demônio (2007), que é o último longa do Zé do Caixão – em breve ele deve divulgar um novo curta, o Sinistro Legado, roteirizado por sua filha, Liz Vamp.

As filmagens ocorreram na Zona Norte, mais especificamente em frente à portaria da antiga Penitenciária do Estado (PE), hoje Penitenciária Feminina de Sant’Ana.

A experiência de assistir a um dia de gravação foi muito marcante e, na ocasião, relatei a história na minha extinta Coluna Tufão, no semanário O Alfinete, de Pirajuí – escrevi por uns dez anos nesse jornal, semanalmente, sobre qualquer assunto. Outro dia conto mais desse lance e até trago algumas doideiras que saíram por lá.

Como o assunto é Zé do Caixão, resolvi reproduzir o texto aqui no Homem Benigno. Graaaande Mojica!

Publicado originalmente em Novembro de 2006 em O Alfinete (Pirajuí)

Zé do Caixão

Mojica, vestido como seu principal personagem, conversa com diretor e equipe técnica sobre a cena (FOTOS: Marcelo Daniel)

SIMPLESMENTE JOSÉ DO CAIXÃO

Meu velho, gasto e podre relógio Iroman de pulso marcava quase seis horas da manhã quando cheguei para uma mágica missão, acompanhar a gravação de algumas cenas do novo filme de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, em uma locação na Zona Norte de São Paulo. No filme, intitulado A Reencarnação do Demônio, os fãs do ídolo do terror nacional descobrem que ele não estava morto, como mostravam as cenas finais de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), mas sim que, trinta anos depois, o maldito estava louco, preso em um manicômio.

Set montado, já com os primeiros raios de sol, loucura total, por volta de 40 pessoas na equipe de produção, sem contar os atores. De repente, todos se calam. Ao longe, inocentemente acompanhado pelos filhos, o senhor de 70 anos chega, mais gordo, com os cabelos e barba mais grisalhos, vestindo preto, com capa e cartola, trazendo ainda um amuleto mais que diabólico no pescoço. Não há uma pessoa que não se renda à magia macabra presente na figura de Zé do Caixão. As unhas da mão esquerda são porcamente gigantes, por questão operacional, as da mão direita foram cortadas, sendo pregadas pela equipe de maquiagem a cada início de cena.

“Atenção! Som! Câmera! Ação!”, me arrepio inteiro, até a direção de Mojica é entoada como uma maldição. Na cena, o coveiro do inferno acaba de deixar o manicômio e é recebido por uma mulher, que o abraça, com saudades. “Saia daqui! Não tenho tempo para bobagens… Onde está Bruno?”, interrompe Zé do Caixão, que só quer saber de dar continuidade ao seu infindável ciclo de malfeitorias. Bruno, o corcunda deformado e fiel escudeiro, é interpretado por Rui Rezende, conhecido pelo personagem Astromar Junqueira na novela Roque Santeiro (1985). Jece Valadão também participa das filmagens, o que dá ainda mais uma cara de anti-heroísmo a toda trama.

A grana para o longa metragem é na casa de R$ 1 milhão. Fiquei sabendo por lá que ainda é pouco, tendo em vista que cada dia de filmagens como o que acompanhei custa entre R$ 20 e R$ 30 mil – levando em conta que, no final do dia, não foram gravados nem cinco minutos.

Mesmo assim, o que ainda fica no ar é a expectativa de um grande documento histórico, além de uma grande honra para a nossa geração, em ainda acompanhar na ativa o único monstro internacional do cinema brasileiro de horror. Com uma legião de fãs no planeta que deixariam as cenas mudas de Rodrigo Santoro em Lost no chinelo, Mojica é o tipo de artista que desde o início foi vítima de um imenso preconceito pelo público e o mercado brasileiro em geral. Era sempre lembrado por ser emblemático e aterrorizante, porém, sempre esquecido quando o assunto era a valorização do seu trabalho. Tudo isso imprime ao filme A Reencarnação do Demônio, previsto para o segundo semestre de 2007, uma importância muito grande e uma expectativa imensa para novamente ver a capa preta de Zé do Caixão nas telonas do Brasil e do mundo.

Ah! Antes que eu me esqueça, como sempre, durante as filmagens, além de mim mais dois pirajuienses, de passagem pelo local, viram toda agitação set. Afinal, não é só a maldição de Zé do Caixão que anda por todos os cantos, né?

Zé do Caixão

Eu, na maior cara de égua, ao lado do Monstro Sagrado, Mojica!

 

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