Seria o cantor Sorocaba a Gertrude Stein de nosso tempo?

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Me agrada (sempre agradou) o mecenato.

Traz paz interior e entusiasmo a ideia de um sujeito que chega junto com a grana e banca sua arte, sua obra (artística, não a edícula no fundo do seu terreninho financiado).

Na minha mente, sempre surge a história de um episódio qualquer do Chapolin Colorado em que o ator que faz o Sr. Barriga interpreta um mecenas – seria Lorenzo de Medici o seu nome? Ele bancava as obras de Leonardo da Vinci e a trama se desenrola ao redor de um quadro danificado: o valiosíssimo “Espinafres em Dó Maior”.  

Ao longo da História da Arte, os mecenas soltaram seus chequinhos e financiaram quadros, esculturas, afrescos e possibilitaram o surgimento de movimentos culturais inteiros.

Tão importante quanto o dinheirinho que pinga, é o papel daquela pessoa que vê no artista o potencial, enxerga a estrela brilhar e ali investe sua curadoria – pode ser um editor, um diretor artístico, um empresário, um agente (não penitenciário, diga-se de passagem).

Nesse caso, diferentemente do mecenato, a pessoa “por trás” do artista também ganha – dinheiro grande, renome e, se quiser, constroi nesse ato uma marca forte, passa a ser referência para outros aspirantes nesse mundo tão mágico que é o das artes – mesmo seu pai querendo que você fizesse engenharia, química ou mesmo aquele cursinho para ser topógrafo, dizem que isso está dando um dinheiro…

Gertrude Stein

Gertrude Stein formou-se médica nos Estados Unidos. Pouco mexeu com medicina. Foi para Paris e fez seu nome como intelectual do seu tempo, as primeiras décadas do séc. XX – foi crítica de arte, curadora, leitora, editora e, também, escritora.

Sei que muita gente pensa que ela é apenas um papel naquele filme do Owen Wilson do Woody Allen, mas não, ela existiu mesmo. Sua casa, na Rue de Fleurus, 27, era um ponto de encontro da renovação artística ocidental. Logo de cara, quem ali chegava encontrava um bilhete muito provocador: “ao fiscal da Força e Luz: favor fazer a leitura do relógio no corredor lateral”.

Ela e seus irmãos, Leo e Michael Stein, praticamente criaram o mercado de obras de arte da maneira que conhecemos hoje. Foram os primeiros marchands, na época em que era tudo mato. Compraram Picassos e Matisses a preço de banana. E não é exagero: o quadro “La Vie”, do espanhol, foi comprado pelos irmãos em 1905 e embalado em jornal junto com um cacho de banana-prata. Eles estavam voltando da feira.

Gertrude Stein

La Vie (1903), do menino Picasso (Wikimedia)

Gertrude Stein e sua companheira Alice B. Toklas organizavam vários churrascos na Rue de Fleurus e ali surgiam os grandes nomes do futuro da intelectualidade artística mundial.

Franz Scott Fitzgerald cuidava da grelha e, posteriormente, trouxe ao mundo talvez o melhor dos mais sucintos romances já escritos: “O Grande Gatsby” – um livro que é encabeça praticamente toda lista literária da categoria Leio numa sentada.

Erza Pound também vivia por lá. Adorava levar um pão de alho. Comprava num lojão de fábrica e o produto era bom. Mas nunca é muito bom um poeta comer muito alho, se inventa de declamar algo fica aquele zinabre no ambiente.

Lá pelas altas horas da noite, inventavam de abrir aquele Jack Daniel’s de mel sabe? Aquilo não desce com gelo, todo mundo sabe, daí eles vão de shot, no copo pequeno, gelado. Meia dúzia de copos depois e Ernest Hemingway já começava a dar trabalho, mexer com a mulher dos outros, daí é só ele que presta, que é repórter de guerra, que caça orangotango na unha, então já viu né. Um dia deu um pescotapa em Georges Braque que o fez engolir a parte de cima da própria dentadura. O que intriga os críticos de arte até hoje é o fato de Braque nunca ter usado dentadura.

 

Cantor Sorocaba

É óbvio que o cantor Sorocaba não foi batizado com o nome dessa comarca da região central do Estado de São Paulo. Ele tem um outro nome lá, mas passou a ser apelidado de Sorocaba pois foi criado naquela terra.

Fez uma dupla sertaneja com o Fernando: a Fernando & Sorocaba. Aproveitaram o movimento artístico educacional que surgia no Brasil, o sertanejo-universitário e, desde 2006, embala sucessos em rádios, baladas e sons em porta-malas de carros abertos que aguardam, ansiosamente, a chegada das forças policiais com o instrumento de medição sonora: o decibelímetro.

 

 

Não bastasse o sucesso com a dupla, que foi alavancado pelo DVD de nome lindíssimo: “Ao Vivo em Londrina (PR)”, Sorocaba começou a enxergar além da própria carreira. Passou a olhar ao redor.

Nesse movimento, capturou logo de cara um sucesso “meteórico” – Luan Santana (hoje já não mais está na empresa do artista).

Li na revista piauí uma passagem linda de Santana que me comove (mais ou menos). Em determinado ano, na Festa do Peão de Barretos, o pai do cantor teria descolado R$ 3 mil à organização do evento para o filhote cantar num palquinho secundário. No ano seguinte, um show do já emergente Luan no “mainstage” provocaria um histórico congestionamento nas estradas vicinais que levam ao recinto.

Nos primeiros momentos, a Rue de Fleurus de Sorocaba era a simpática cidade de Londrina. Logo em seguida, em sua porta bateriam outros grandes nomes da música nacional: Thaeme & Thiago.

A dupla embalou sucessos desde suas primeiras canções e, influenciada por uma onda tardia da obra de Isaac Azimov, promoveu uma inédita e apocalíptica troca de thiagos.

Na cola da dupla, cantor Sorocaba encontrou Lucas Lucco. Musculoso e humano, o jovem quase que imediatamente estourou nas paradas e numa bobeada foi parar no elenco da antiga Malhação, que era gravada no Rio de Janeiro, onde ele saboreava açaí com banana no finado estabelecimento Gigabyte.

Há ainda outros nomes da música – e até do futebol – sob agenciamento de Sorocaba. Seu crivo é capaz de captar os vultos artísticos que vão abalar a geração. Do presente, do futuro e, também, do passado. Foi sua a decisão e sugestão de unir os reis da música sertaneja romântica das décadas de 70 e 80, Milionário & Marciano. Escrevi sobre essa linda união nesta reportagem do Noisey, o canal de música da Vice Brasil.

Cantor Sorocaba

Arte fenomenal do ilustrador Robson Minghini para a reportagem do Noisey (saiu até na Folha de S. Paulo!!)

 

O olhar de Gertrude Stein mudou a maneira do mundo moderno enxergar as cores, as texturas, as pinceladas; também revolucionou a forma de contar histórias, descrever cenários, personagens e, por fim, acabou revolucionando a escrita no idioma inglês.

O cantor Sorocaba, por sua vez, também deu uma mexida boa com a coiseira toda, vai falar que não?

 

 

(Foto de capa: Wikimedia e FernandoeSorocaba.com.br)

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