É até curioso: poucos metros dividem as duas oficinas de reparos dos sapateiros mais antigos do Brasil, no centro de Pirajuí. Mas não são concorrentes, longe disso!
Hoje a sapataria de um até indica clientes para o estabelecimento vizinho.
E antes que vocês perguntem qual pesquisa mostrou que eles são os sapateiros mais antigos do Brasil, me antecipo. Isso sou eu que estou dizendo aqui no Homem Benigno.
Mas, cá para nós: não é muito comum dois sapateiros, o “Nardo” Franzé, 89 anos (faz 90 em março!) e o Mario Bianchini, 80 anos, que “batem ponto” todos os dias no seu local de trabalho, estou certo?
Ou seja, pode assinar embaixo: são os dois sapateiros mais antigos do Brasil, sim. E são orgulho de Pirajuí.
Honra teu pai
“Nardo”, como vocês devem imaginar, é o apelido de Onaldo Franzé.
Sua oficina é, certamente, a mais antiga de Pirajuí. Não sei dizer a data exata, mas as contas indicam que o estabelecimento foi inaugurado nos anos 1930.
O ponto na Rua 7 de Setembro foi estabelecido há 40 anos.
Franzé sentiu o cheiro do couro e ouviu o barulho do maquinário de reparos das botinas dos trabalhadores rurais quando era muito menino: aos 9 anos de idade.
O pequeno Onaldo foi para a sapataria criança, para acompanhar os trabalhos do país Luis Franzé (in memoriam).

O olho atento e curioso da criança aprendeu a colar, costurar e fazer reparos. Pouco tempo depois, ele já era o braço direito do pai no ofício.
Assim que o patriarca faleceu, Nardo assumiu a sapataria – e está até hoje.
É claro que, se vocês descerem agora mesmo na Rua 7, não vão ver o sapateiro nonagenário mexendo com cola de sapateiro, né. Mas, acredite. Ele quer estar presente todo santo dia na oficina.
A família se organiza para deixá-lo por lá. Ele, literalmente, respira sua sapataria.
Sapataria Nossa Senhora Aparecida
É a santa padroeira do Brasil quem nomeia a sapataria do Mario Bianchini, desde 1961, quando inaugurou o estabelecimento.
E, pode acreditar. Desde então, poucas vezes os pirajuienses viram o ponto fechado. O seu Mario é a perfeita definição do workaholic local, rs!
Atualmente, para vocês terem uma ideia, ele teve uns probleminhas nas coluna e está utilizando um colete imobilizador. Experimentem dar uma passada em frente à oficina e vocês vão vê-lo todo imobilizado, costurando, furando e colando calçados. É impressionante.
Aliás, essa é uma das coincidências entre os dois sapateiros mais antigos do Brasil: os dois tem uma dedicação inigualável ao ofício.
Franzé, como contam seus familiares, abria a sapataria todo santo domingo! Poucas vezes viajou durante toda sua vida – sua preocupação estava (e ainda está) nas encomendas, as matérias-primas, os maquinários etc.
Assim, garantiu o sustento de suas filhas – e, hoje, orgulha suas netas.
Bianchini trilhou o mesmo caminho. Trabalhar, trabalhar e trabalhar sempre foi o seu lema. Até pouco tempo atrás, era bastante comum enxergar as luzes acesas até altas horas da noite.
Era seu Mario na labuta!

A dedicação plena do sapateiro garantiu o sustento e formação de sua família. A costura e a cola de sapateiro formaram seus filhos, entre eles, dois renomados engenheiros que ocupam posições de destaque em uma das maiores construtoras da América Latina.
Outra triste coincidência entre os dois sapateiros foi a despedida de suas esposas… Tanto “Nardo” quanto seu Mario ficaram viúvos nos últimos anos… A esposas sempre foram companheiras inseparáveis e muito pacientes diante da dedicação desses dois profissionais à população de Pirajuí. Hoje, fica a saudade das mães e avós carinhosas que sempre foram.
A arte e seus discípulos
A proximidade entre Franzé e Bianchini não existe, simplesmente, pela vizinhança.
Na década de 1950, o jovem Mario Bianchini deixou a lavoura, na zona rural de Pongaí (SP) e veio trabalhar, justamente, na oficina do Franzé.
Aprendeu o ofício com exatidão e maestria. Tanto com o Nardo quanto com o João Ricardo, que tinha uma sapataria na Boca da Onça.
Hoje, a dupla dos sapateiros mais antigos do Brasil vivencia um momento de transição do ofício.
No caso de Franzé, o bastão praticamente já foi passado para o Gonçalo, que foi aprendiz do Bianchini e que hoje “toca” a sapataria.
Mario Bianchini, por sua vez, gradativamente transmite a gestão da oficina para Valdir Beraldo, abnegado funcionário que entrou adolescente na salinha comercial da Rua 7 e hoje já é avô!

Sapateiros mais antigos
Como os próprios sapateiros afirmam, hoje o ofício mudou completamente. O couro legítimo e tantos materiais de qualidade foram, aos poucos, sendo substituídos pelo plástico e outros derivados.
Cada vez menos, o sapateiro deixou de ser o primeiro contato no momento de um furo ou rasgo nos calçados – muita gente prefere, simplesmente, comprar outro par.
No entanto, enquanto houver um produto de qualidade, será necessário um competente sapateiro para manuseá-lo.
O Mario Bianchini é, praticamente, uma pessoa de minha família. Meu pai José Antônio o considera bastante e, desde que me lembro por gente, era a sapataria o local de lazer onde ele ia, diariamente, bater um papo. Na verdade, por um longo período, a oficina ficava aberta até às 23h.
Ali também era o ponto de encontro de gente muito querida de minha família, como meu tio Angelim Marcato, que faleceu em 2016, e que mantinha seu banquinho na lateral da oficina sempre reservado.
Enfim, são pessoas muito queridas de nosso convívio e que, fizeram do trabalho sua maior marca. Difícil o pirajuiense que não conheça o Nardo Franzé e o Mario Bianchini.
Difícil também o conterrâneo que não os admire. Temos MUITO orgulho de termos em nossa cidade os dois sapateiros mais antigos do Brasil!
* Agradeço ao querido Richard Neme pela ideia deste artigo para o Homem Benigno. Se vocês tiverem alguma sugestão, escreva para a gente!
* Gostaram dessa história? Conheça também um pouco mais sobre A Casa Ramos em Pirajuí
Ivete Terezinha fabricio
17/01/2020 — 19:59
Você sempre de parabéns pelas interessantes reportagens e que tbem contam um pouco sobre nossa gente
funcionário Marcelo
17/01/2020 — 22:05
Obrigado pela leitura e pelo carinho, Professora!
Edna
19/01/2020 — 04:23
Nossa… viajei agora… Eu me lembro bem desse boneqjunho… Obrigada por me proporcionar essa lembrança tão agradável.
funcionário Marcelo
24/01/2020 — 15:36
obrigado, Edna!
Marcão Sapatos
16/05/2021 — 16:50
Top, encontrei sem querer esse blog e esse artigo aqui,
gostei muito do que lí aqui… Obrigado!
funcionário Marcelo
18/05/2021 — 18:20
Que legal Marcão! o Sr. Mario, infelizmente, faleceu