Com uma intensa atuação que atravessou as décadas de 1970 e 1980 na comunidade de Pirajuí (ficou de 1967 a 1990), o padre Godofredo Scheepers é um personagem marcante da história do município.
E quando se fala em atividade na vida do saudoso pároco, não significa apenas à frente das missas e rotinas católicas.
Ele foi muito além da igreja.
Padre Godofredo foi uma figura presente nos mais diversos setores da sociedade pirajuiense. Conversava com todos os públicos e áreas, ouvia as necessidades dos mais pobres e necessitados, conduzia a igreja com muito entusiasmo e se entregava de corpo e alma para as obras sociais.

Um Holandês em Pirajuí
Godofredo nasceu em abril de 1935 na extinta cidade de Geldrop, na Holanda – digo extinta pois, desde 2004, ela passou por uma fusão com o município vizinho e a ser chamada Geldrop–Mierlo.
Sua terra natal não era tão diferente de sua futura casa brasileira, Pirajuí. Apesar de muito mais antiga, tinha 28,5 mil habitantes.
Como curiosidade, algumas ruas de determinada região da cidade recebem nome de personagens, lugarejos e características das obras do linguista britânico, pai da literatura de fantasia, J.R.R. Tolkien, autor de histórias como O Senhor dos Anéis.
Mas foi a igreja que cativou o jovem morador que, é claro, não nasceu Godofredo, mas Gerardus Lambertus Clemens Scheepers.
Em setembro de 1959 ele iniciava sua jornada no catolicismo, quando fez seus votos temporários como estudante de mestrado. Sua ordenação ocorreu também em setembro, mas de 1961, pelos Missionários do Sagrado Coração, por isso a sigla MSC sempre aparece ao lado de seu nome.
O desembarque no Brasil ocorreu em 1963. Após quatro anos, chegava a cidade de Pirajuí, onde pouco tempo depois assumiria, inclusive, além das atividades paroquiais, a direção da então Rádio Pirajuí Ltda. Conheça mais sobre a história dos meios de comunicação de Pirajuí clicando aqui.

Figura carismática e marcante
Quem lê estas letras aqui no Homem Benigno e tem alguma relação com a cidade de Pirajuí, certamente possui alguma fotografia própria ou de familiar ao lado do padre Godofredo.
Principalmente casamentos e batizados, são imagens em preto e branco com a figura marcante conduzindo a cerimônia.
Scheepers era um homem alto e corpulento, sua fala era pausada e marcada por um forte sotaque. Curiosamente, fazia-se entender com facilidade, lembro de ouvi-lo conversar e achar engraçado – eu era uma criança.
Na minha memória, o vejo conversando bastante com meus pais (foi ele quem celebrou o casamento deles e todos os meus tios, praticamente) e brincando comigo, de forma muito simpática.
Seus cabelos lisos às vezes ficavam um pouco mais longos, quase como um formato de tigela. Seus óculos, parceiros desde a juventude, eram acessórios indispensáveis – não me recordo de tê-lo visto sem as grossas lentes.
Entre os jovens, soube entender como ninguém aquela emblemática geração dos anos 1970. Ao invés de segregar, como sempre me narrava o amigo Claudinho Cândido, ele se integrava às turmas, seja pelos assuntos, pela mensagem ou pela música. Um padre!

A Casa do Garoto
Talvez das etapas mais marcantes da passagem do padre pela cidade seja seu amor incondicional pela Sociedade Beneficente de Assistência aos Menores de Pirajuí.
Conhecida informalmente como “Casa do Garoto”, a organização iniciou suas atividades em novembro de 1971 e teve nos registros o padre Godofredo como presidente.
A instituição, hoje o Lar Dom Bosco na Providência de Deus, à época recebia crianças e adolescentes em situação de risco ou abandono.
Centenas de crianças receberam desse espaço as chances necessárias para crescer e se formarem cidadãos. Exemplo notório dessa fase é o do medalhista olímpico Claudinei Quirino, que perdeu a mãe quando ele era bebê, as dois anos de idade. Após o ocorrido, ele e seu irmão mais velho foram viver na Casa do Garoto.
Nas palavras do atleta campeão, padre Godofredo “foi uma das pessoas que deram oportunidade e me direcionaram no caminho do bem. Só tenho a agradecer”.
No site oficial da MSC na Holanda, os Missionarissen van het Heilig Hart, o papel do padre na instituição é lembrado com carinho. “Era interessante vê-lo percorrendo as ruas de Pirajuí com um carrinho de coleta de presentes. Ele ajudou a muitas pessoas através de seu cuidado pelos pobres”.

Um caminho de realizações
Em 1990, deixa a cidade de Pirajuí e passaria a frequentar outros municípios, sempre com um “rastro” de saudades.
Ficou uma década em Campinas, na paróquia de São José. Chega a Bauru em 2002 e passa as ser diretor do Colégio La Salle, renomada instituição de ensino técnico que, contra a vontade de Scheepers, foi fechada em 2008 pelos MSC – as motivações foram financeiras.
Quem diria que após uma longa trajetória de realizações em Pirajuí, seria na vizinha Bauru onde o pároco viveria até seus últimos dias.
No dia 2 de junho de 2013, ele participou de uma viagem com sua paróquia até a cidade de Aparecida (SP). Ao voltar da romaria, sentiu-se mal e foi encaminhado a uma unidade de saúde, onde se diagnosticou um infarto.
Permaneceu internado e, apesar de ligeira melhora, não resistiu e faleceu no dia 29 do mesmo mês. Tinha 78 anos.
A notícia de sua morte causou grande comoção nas cidades onde passou – em Pirajuí, foi amplamente divulgada e comentada. Mais recentemente, recebeu uma homenagem que, certamente, teria gostado muito: passou a nomear o Centro Municipal de Educação Infantil (Cemei) do bairro Jardim Europa.
Crianças, homens, mulheres, idosos. Todos foram impactados pela sua bondade – sorte de quem o conheceu! Como disse o obituário registrado na Holanda, “Godofredo dedicou toda a sua vida a seus irmãos”.
JOSE EDUARDO XAVIER
19/06/2019 — 11:30
Padre Godofredo, lembranças boas desse homem, que teve como responsabilidade a casa do garoto, onde hoje muitos são pais de família e homens honrados na sociedade, onde não tiveram a oportunidade de ter um lar , teve no padre a unica opção de família, o vi algumas vezes aqui em bauru na paroquia aparecida, próxima a rodoviária, onde veio a falecer apos passar mal em uma procissão, grande homem, grande caráter, grande exemplo de pessoa, faz falta nos dias de hoje.
Julio Cesar dos Santos
03/03/2021 — 03:41
Julio da Casa do Garoto como era conhecido na querida Pirajui , tambem criado pelo meu saudoso Padre Godofredo.
Eterna gratidão e uma saudade imensa que não passa.
Minhas lembranças no hospital onde ele totalmente entubado, ainda vive em minha memória.
Sua partida pra ficar junto ao Pai, muito me conforta porque sei que é lá que ele está morando.
Obrigado meu Deus por ter me dado o Godofredo como pai nessa terra.